Por Antônio Marcelo

Jorge André atravessou naquele dia de manhã do seu quarto para o banheiro, descalço, sem camisa, seus passos na frieza do chão. Lá fora chuviscava. Passou rápido pela frente do quarto da sua mãe que quase nunca estava de porta fechada. A senhora deficiente das pernas, um pouco da mente talvez, mas não dos olhos, nem dos ouvidos, viu André passar pelo corredor, apressado. — Vai chegar atrasado de novo, não é? E Esse pé descalço no chão, queres ter outras daquelas convulsões horríveis, filho. Dona Rita era uma mulher que não foi feliz no casamento, mas sempre quis a felicidade e o bem do filho. Dizer que ela o amava é redundante mas passou a vida inteira e ela pouco soube se expresar. A caverna que se tornou sua vida esfriou seu coração. Rita trabalhou a vida toda numa escola pública no centro de Nova Belém, até o dia do acidente, que levou a vitalidade de suas pernas e a vida de seu marido, Abelardo. Só André saiu ileso. Somente alguns arranhões. O menino era o único que estava de cinto. A porrada foi forte. Frontal. Destruiu toda frente do carro. Airbags não foram suficientes. Ferros retorcidos esmagaram suas pernas e mandaram a alma de Abelardo para além das nuvens, bem distante das feiras sujas e casarões em ruínas daqueles tempos. Ele se foi. Para sempre? Rita era forte, mas nunca superou aquela fatalidade. O menino, naquela época com sete anos, chorou dias e noites, mas no fundo sabia que, precocemente, tinha que cuidar de si e da mãe. Foi duro, mas ele conseguiu. Matava dois leões por dia. Virou um titã pra sua idade. Derrotou gigantes ao longo de sua vida. André, agora com trinta anos, até hoje, com todo amor, cuida da mãe. Seu caráter de aço demonstra que não irá nunca abandoná-la, por isso não pode está se atrasando e correr o risco de perder o emprego toda vez quando, na noite anterior, encher a cara de vodka e música experimental pra devorar livros se aventurando na madrugada do seu quarto. Em pé, na frente do espelho do banheiro e Meio sonolento exclama: –Ah! Caminhar para o outro lado da cidade nesse dia de chuva é um ato perigoso e valoroso. — Estou muito atrasado, mesmo assim irei. Com pressa, enchugou-se, vestiu-se. Tomou um chocolate quente com umas bolachas salgadas. Vestiu uma capa de chuva amarela por cima do uniforme verde e branco e Despediu-se de Rita com um beijo em seu rosto. Ele saiu. Antes de fechar a porta acenou sorrindo pra mãe, ainda mastigando algumas bolachas.
Enfrentar todo dia aquele trajeto é uma aventura que talvez a gente só ler nos contos de João leno Rocha, Murilo Rubião, kafka, Garcia Marquez ou até mesmo nos clássicos de Voltaire. A maior parte da viagem é cinza e cansativa de tanta poluição, e as casas, escolas, prédios e arbustos estão maquiados de fuligem. Muitos e muitos carros, motos, ônibus, caminhões carregados de produtos supérfluos, com seus poluentes sem controle, sujaram as coisas durante anos de corrupção e egoísmo. Pelos becos vagam mendigos, gatos, ratos e cães famintos, revirando lixos não recolhidos. Pessoas de todos os tipos transitam entre si como formigas, mas é como se estivessem sozinhas, naquele chuvisco de um só ritmo, de um só significado. Viciados e espiritos caídos roubam tudo que pensa e passa por esse percurso sórdido, por entre ruas, quadras, praças e bairros abandonados pelos anjos da guarda e pelo poder público devido o alto grau de falta de caráter, justiça e impureza. Aquela selva de pedra e de pessoas era ameaçadora. Um convite para a perdição. Uma cidade como muitas, onde a amizade, a caridade e o amor tinham esfriado. Jorge André, com uma mochila de couro preta nas costas, pensando na vida, sujando seu único sapato gasto, continua seu caminho a passos largos naquele chuvisco nostálgico. Mais ou menos uma hora e meia que ele progridi a pé, e isso era uma eternidade pra ele, rapaz magro e alto, que não gosta do caminho que faz, que cresceu sem pai e vive preocupado com o bem estar da mãe, sua única família. “Mamãezado!” Era como zombavam os moleques na escola. Jorge, como Rita o chama, não se intimidava e brigava com aqueles moleques nojentos do quinto ano, partindo irado pra cima, derrubando muitos, apanhando da maioria, manchando de sangue a sala de aula e sua roupa. Ele, rindo e agora passando por um bosque de mangueiras secas, relembra dessa fase difícil que venceu. Jorge André cruza esses caminhos com atenção redobrada, mãos no bolso da capa amarela segurando um canivete japonês, principalmente quando chove e as vielas ficam soturnas, pois os ladrões preferem esse momento para exercitar suas habilidades criminosas. No meio do seu trajeto, próximo a biblioteca clássica e empoeirada, se depara, numa obra cubista do destino, com uma moça que estava sentada no banco daquela praça gótica, depedrada por vandalos. Ele percebeu que ela estava suja, ferida e chorava. Educado e de um nobre coração, chegou perto dela, dizendo: — Moça, sei que não nos conhecemos, mas vi você sentada aí, sozinha, nesse antro de almas perdidas. Não consegui fingir que não a vi. Como é seu nome? O meu é André. Posso ajudar? A moça o olhou entre os cabelos crespos claros caidos no rosto olhando para os lados e para trás. Ela parecia estar fugindo de algo, ou de alguém. Mas aquele rapaz, não se sabe porque, lhe inspirou segurança. Então ela, corrigindo sua postura, lhe fala com voz baixa e um pouco rouca: — Todo mundo precisa de ajuda, inclusive você, estranho. Quer saber meu nome? Meu nome é Aldebarã. Em seguida volta pra sua postura de tristeza e desvia o olhar para o chão se perdendo em pensamentos. Ele suspira com a beleza daquele nome. Sabia que quem carrega um nome desses não está à toa nesse mundo. No minimo é de familia rica ou seria isso um pseudônimo artístico? — Nossa, você tem nome de estrela! O que está fazendo nesse lugar perigoso? — Perigoso não são os lugares e sim os homens, vacilando na voz responde Aldebarã. Ela tinha fugido de homens que a mantinham refém por longas duas semanas. Eles eram asquerosos. Sabiam, de alguma forma insana, que a moça valia muito. Isso reforça a suspeita sobre a moça ter abastados bens materiais e ser do outro lado da cidade. Sequestradores não raptam pessoas pobres. Aldebarã estava com fome, com grandes olheiras, magra, suja, fedida, ferida, pouca dicção pra falar. Ela ainda está um pouco tonta devido os remédios que aqueles canalhas davam pra ela dormir bastante e quase não ficar acordada. Como fugiu do seu cativeiro ela não lembra e se lembrar vai preferir esquecer. Foram dias infernais que suportou naquela lugar. Jorge André, palpitando o coração, estendeu a mão e prometeu ajuda-la. Não sabia nada sobre a moça mas não podia, diante as circustâncias, deixa-la alí, indefesa e acoada como um coelho sobrevivente, alquebrado, que escapou ao ataque de cães selvagens. — Estou indo pro trabalho, no outro lado da cidade, mas posso lhe pagar um café da manhã ali na lanchonete daquela esquina antes de seguir. Venha, saia da chuva. Você vai adoecer se ficar aqui, sem falar no risco. Você aceita me acompanhar? Aldebarã não podia recusar pois a fome e o frio falavam mais alto. A fome comia suas tripas, o frio sua pele e o medo sua alma. Ela aceitou o convite e o acompanhou, meio desconfiada. Jorge André que nunca teve namorada ou coisa parecida percebeu que Aldebarã era muito bonita. Debaixo de toda aquela angustia existia uma mulher bela e intrigante. Ela ficou calada o tempo todo e ele lançava frases aleatórias pra tentar quebrar o gelo, mas o trauma ainda resfriava Aldebarã. Quando chegaram na lanchonete os poucos frequentadores os olharam com asco, pensando: “Esses drogados vão nos roubar” Sentaram e chamaram a atendente mal humorada. André pediu dois cafés completos. A fome da moça era tamanha que o rapaz, percebendo isso, quando o café chegou deu seu pão pra ela e tomou só o café, pois ja tinha tomado café antes de sair de casa. Falou pra ela, durante um tempo, sobre coisas boas que ainda existiam alí e lembrou: — Eee Rapá, tenho que ir! Devido seus muitos atrasos, a uma hora dessas ja estava desempregado. Aldebarã olhou pro rapaz, humilde, bondoso, de má aparência e pensou consigo: — Que Alma especial! Ela não estava acostumada a esses espiritos verdadeiros. O meio social que tinha vindo cumprir sua missão era contaminado pela falsidade, inveja e outras baixas energias. O dinheiro transforma as pessoas e o mundo está tomado por esse deus pantanoso. Ela o olhou e como por um toque milagroso seus olhos acenderam e ela viu, num holograma em sua mente, que aquela alma pura morava sozinha com a mãe e deslumbrou, diante de si, toda aquela triste história. Viu que pra ele o que importava mais eram sentimentos e pessoas ao invés do materialismo que dominava quase todos deste mundo. Ele era um dos poucos. Um daqueles tipos sábios e feios. Uma gota daquele mar que está lavando o mundo. Neste mesmo instante ela viu também, passando em câmera lenta, Dona Rita, tentando ficar em pé pra pegar uma foto de seu abelardo, cair no assoalho, bater a cabeça e morrer. “Abelardo veio, na noite anterior, me chamar para uma viagem inesquecível. Estou me sentindo estranha, meu filho” dizia o bilhete de quase despedida. Um vento gelado, fruto da onda gravitacional da morte, passa entre os dois, ser de luz vestido de carne e homem de carne vestido de luz. Aldebarã viu na flutuação quântica de André que ele sentira a morte da mãe. O elo era poderoso. Os dois, em silencio e com barulhos na alma, levantam e se abraçam. Todos na lanchonete olham para os dois se surpreendendo com a cena existêncial. Lágrimas fundem atômicamente os dois que falam ao mesmo tempo: — Meu Deus, como isso foi acontecer?!
Antonio Marcelo, 38 anos, funcionário publico e Trader amador, nasceu em capanema, interior do estado do Pará, foi para Marituba, na região metropolitana de Belem, com 8 meses de idade. Filho de pais humildes e sem muita instrução, deve o seu gosto por livros a sua irmã mais velha, q desde muito cedo o incentivou e o fez gostar de ler e estudar. Sua infância e adolescencia foi vivida integralmente. Brincou descalço na rua, tomou banho de igarapé, tomou banho de chuva, subiu no jambeiro e comeu os mais suculentos e vermelhos frutos. O gosto pelas letras surgiu na metade de sua adolecência e todos os conflitos dessa fase foram transformados em poemas delirantes, que mais tarde entre muitos escritos foram reunidos em livros como RESIDUO DE RELÓGIO e depois surgiu CLEPSIDRA livro feito de um só fôlego. Sua paixão pelo universo o fez escrever FISSURADO PELO CÉU. Mais na frente, seus poemas saem da fase simbólica e incosciente para uma fase prosaica e emotivamente racional, de escritos longos e espirituais. Essa fase é marcada pelo livro SEGUNDO LIVRO DAS RUAS. Admirador demasiado dos prosadores, sempre sonhou em escrever contos, mas a liberdade poética o confundia a criação. Foi quando perdeu o medo e pulou no mar da prosa, criando seus primeiros contos. Desde entao sua vida se tornou mais ampla no sentido lúcido e eterno da efêmera palavra.