Por João Leno Lima

Se falaram de mim, não diga nada. Basta ser mulher, disse Vânia. Soubemos que fugiu com um tal de Rosas, sujeito fanfarrão do outro lado da cidade. Meses depois, Vânia não acordou. Estava irreconhecível e Rosas havia fugido.
Na última vez que esteve por aqui, senti Vânia com um olhar disfarçado, não penetrava em nossas observações, seu sorriso não se abria como antes, havia um sentimento geral de tortura; porque queríamos a velha Vânia, todavia, esta que a substituía, era oca, vaga. Em certo momento, recolheu todos pertences da casa: revistas, anéis, pentes, escovas, vestidos, mesmo os rasgados, havia pressa, tropeços, como se o recolhimento do sol lhe sufocasse, como se a penumbra emitisse pequenos raios nervosos. “Não, não, tenho que ir, “ro” está para chegar e não pode me ver fora”. Vânia suava, Luana sua filinha de cinco chorava e cães ladravam pelo quintal obrigando as vozes à se elevarem. Um café estava sendo preparado. Vânia agia como alguém que mesmo se afogando, não estende a mão para não dar trabalho, prefere em seu interior; a paz de findar com a própria escolha. Virou a esquina antes do café.
Todos se sentiam culpados: Mãe idosa e pai gago, aposentado e frágil das faculdades mentais, irmã trabalhadora explorada pelos comércio central, mal dormia, mal acordava, fora a saudade de Vânia. Ninguém fora jamais visitá-la. Pensamos: Deve estar em paz. Não estava.
Nas rodas de café conversávamos sobre ela, sua gargalhadas e discussões sobre tudo e todos. Seus sonhos em ser professora de português. Sentimos falta até de uns tais de “aniversários surpresas” onde trazia ex namorados, tios jamais vistos, vizinhos falantes e desagradáveis e crianças que ninguém achava o paradeiro. Fechavamos a conversa em torno de Vânia e seguíamos a vida. Omissos, indolentes, banais.
Vânia se afastou de amigas de longa intimidade e uma delas relatou desavenças e tristeza sobre lágrimas que nem chegaram a escorrer para que as poças não brilhassem, causando um “alerta desnecessário”. Como relatou.
– Vânia disse:
Sabe, eu imaginava uma nova vida, minha filinha correr entre essas árvores, compraria um cãozinho e o chamaria de Spake, adoro esse nome pra cachorro, depois, iria a cinema com Rosas, ele me dizia que amava cinema, mas não havia explicado que era apenas os pornográficos, nojentos, bobos até, e não me avisou que gostava de viajar todo final de semana sozinho, para treinar um time de futebol de mulheres. Ouvia suas historinhas, mas sabe, não são convicentes, já peguei telefone no bolsos que foram declarados serem de proposta de emprego, e emprego… Ele não trabalha, me disse que era corretor, mas é uma outra forma de dizer que vendia umas casas para uns amigos em troca de um trocadinhos. Conheci a mãe dele um tempo atrás, mora no interior, quase apanho por ter existido, foi horrível…
Nem posso trabalhar, é contra seu “conceito de vida” é contra seu lema “mulher em casa homem na rua”. É um mantra… Não sei se irei suportar, aquilo que não pode ser suportado e que muitas suportam, eu suporto, eu posso, talvez eu seja fraca, você acha? não sei, talvez eu não seja a mulher feito rocha que imaginei e que eu projetei para a minha filha.
Alguém me disse que o mundo era dos homens e eu fui incapaz de retrucar, questionar, virar a cara, ouvi, e aceitei, até fugi… Sabe, tenho que dar um passo, sair daqui, vou conversa com Rosas, quem sabe ele muda, quem sabe ele aceita: Não dormir mais fora de casa todo o final de semana com 24 mulheres, saída às quartas para treino, saída às sextas para visitar parentes e voltar bêbado, não gritar, não colocar minha filha de castigo só porque ela quer ver desenhos e ele quer ver notícias de crimes bárbaros, não discutir comigo porque fui ao mercado sozinha a tarde sendo que “mulheres vão ao mercado só pela manhã para comprar legumes”, não discutir comigo porque o chamo quando ele está conversando com amigos ou brigar comigo porque fui visitar parentes. Quem sabe ele pare de tentar transar comigo me chamando de “vaquinha…”. Vânia ouviu uma pergunta sobre se amava Rosas apesar dos inúmeros pontos contrários e ela calou-se.
Retomou de um ponto inesperado. Segundo nos conta sua amiga. “Vânia disse:”
Sabe… há um lugar, quase escondido, onde vou toda a manha tomar sol. Saio às cinco, principalmente no final de semana e quando Ro está ainda um pouco embriagado e só acorda as onze. Vou devegar, levo a filinha ou deixo ela dormindo para não atrapalhar seu soninho e recebo aqueles raios. Lá deixo me levar,sabe, torço para bater um vento forte, fecho as curtinas dos olhos e vou imaginando algum ponto, sem música, sem palavras, um lugar que não existe nada humano, nem eu, nem restos de mim, apenas o planar sugerido de mim como uma pintura flutuante, azul, verde, masala, roxo… Isso dura segundos, abro os olhos e ainda estou ali, me alimentei. As vezes choro lembrando do pessoal de casa, levanto, retorno e faço café, não posso comprar pão até Ro acordar, depois, ele acorda reclamando que não fui comprar, volto e ele nem me olha até ingerir os primeiros pães e penso: “como é um ator, essa pessoa que está aqui na minha frente é um clandestino, um anônimo, confundiu tudo que eu imaginava com gestos de amor e galanteio, gosto refinado por cinema e conhecimentos táticos sobre futebol que transformavam aquela coisa em poesia, dizia até que escrevia versos mas “parou para trabalhar”, deve ser versos fantasmas igual seu trabalho que nunca vi… Um dia desses ele disse que iria embora, eu disse que também e vi uma fúria inesperada naqueles olhos. Hoje vou confessar que não há mais amor, somos dois amigos insuportáveis dentro de um espaço sufocante.
– Vânia desligou cedo demais. Sem se despedir.
Vizinhos contaram que uma gritante discussão varou a madrugada até lá pelas cinco. No fim daquele pequeno sítio, acharam Vânia. “ela gostava de olhar o Arco”. Era assim que chamavam um emaranhado de árvores que formavam um arco, cujo sol penetrava pelas manhãs.
Luana não chorava, dizia apenas que a mãe havia ido “passear no quintal com o papai”.
João Leno Lima é escritor, contista, servidor público federal e morador da cidade de Marituba – Pará. Membro da Editora GatoEd, colaborador da Revista Criado Mudo (na plataforma medium), curador da Revista Kasmurro e autor da página de literatura Microcontexto (Instagram). Foi Publicado nos caderno de prosas da Revista Luso-brasileira ‘Subversa’ (2016 e 2018), na Revista ‘Trino’, nas antologias da CBJE (2015) e do site Álbum de Memórias em 2020. (Físico e E-book) e foi finalista do concurso literário das Universidades federais do Pará em 2018. João Leno Lima é pai do Júlio.