QUANDO A PERIFERIA VIRA TEATRO

Por Leila Leite.

Fotografia | Luiz Braga

Aqui quero falar sobre uma mulher negra, mãe, atriz, jornalista, bissexual, militante socialista, escritora, pensadora e periférica. No entanto, de todos os pontos em sua história um se destaca mais, ela é filha de Dona Deia, uma mãe corajosa, como muitas outras do bairro da Terra Firme, e que sozinha educou suas três filhas, três personalidades completamente diferentes, cada uma em sua profissão e em suas escolhas. Mas, talvez Geisianne da Silva Dias seja a que mais costure sua história a dela.
Gê Dias ou Geisy, como assina seus trabalhos, é uma moradora do bairro da Terra Firme (ou ex-moradora agora que está saindo para morar em outro bairro), nele nasceu em 25/11/1983, correu por suas ruas como toda menina da década de 80-90 fazia, sem medo de ser feliz, burlava as fronteiras impostas as crianças por suas mães para não se perderem ou não serem sequestradas, viveu assim aventuras fantásticas de uma criança da periferia, com direito a muitas quedas na rua, passeios de ônibus e frutas roubadas.
Ela fez parte de um movimento de juventude na igreja católica, a PJ – Pastoral da Juventude – onde aprendeu muitas coisas sobre como fazer sua militância e também como não fazer, esse momento ainda era o início de sua adolescência, entrou para o Partido dos Trabalhadores – PT- militou ali durante muitos anos e mais tarde mudou de partido. Mas, vamos ver o que ela tem a dizer sobre tudo isso.

“Não sei se iniciar falando de remotas lembranças da infância me torna compreensível, mas é que tenho impressão de que toda criança nasce com suas veias pulsando pela produção artística. Por isso para eu responder quando começa minha relação com arte, posso falar dos movimentos de quadrilha junina que fazíamos aqui na rua São Domingos mesmo no bairro da Terra Firme, onde moro em Belém. Quando eu era criança e me juntava com minhas irmãs e os outros filhos dos vizinhos e fazíamos a dança e os adultos o mingau e outras comidas, experiência comum para muitas crianças da minha época, acredito eu, mas que para alguém que morava em uma rua sem saneamento básico nenhum naquela época e que se criavam poças de lama gigantes a cada período de inverno, a quadra junina era uma época de festejo e tanto. Afinal o verão estava chegando e com ele uma pausa nas chuvas por um tempo. Até que em 1995 quando tinha por volta de 11/12 anos conheci uma das linguagens artísticas que mais venero, o teatro. Participei de uma remontagem de uma peça que se chamava “Guerra entre fadas e bruxas”, texto de José Leal, que ensaiamos na paróquia de São Domingos de Gusmão e na escola Brigadeiro Fontenelle, quando cedida pela direção, e o elenco foi composto por pré-adolescentes de um grupo que chamamos de Aliança Divina, que organizamos a partir da catequese e com nossos amigos do bairro e fui com minha irmã Rita Giselle, que hoje é arte educadora e assistente social. Estiveram nesta montagem também Milena e Afonso Corrêa que eram de grupos de jovens da paróquia e moravam aqui no bairro também na época e Genésio Barros, ator, diretor, escritor, reconhecido e premiado na cena e em festivais teatrais da época e que colaborou com a direção de nossa peça. Não tenho certeza, mas acredito que Genésio tenha feito parte do Grupo de Teatro Ribalta. Ele infelizmente faleceu em 2014. Uma perda para o teatro de nosso bairro e da cidade de Belém, sentida por colegas que tiveram a honra de dividir a cena com um ator que me fez ver que era possível ir do choro da dor ao choro da alegria em uma troca de interface, combinada ao controle da respiração diafragmática e vice/versa. Que teatro não era talento ou mera beleza estética, como vendiam as propagandas de shampoo, era técnica, concentração, estudo, dedicação. Lembro de um dos dias de oficina nas salas calorentas do Fontenelle, nós cheios de esperanças com caderno nas mãos sonhando em ser quem sabe um dia grandes atrizes e atores nos palcos e até mesmo da TV e Genésio com aquele jeitão humilde, mas com sua vasta riqueza intelectual, desenhou no quadro a diferença entre a estrutura do prédio do teatro e a prática teatral, o ser ator, a construção do personagem. Na época, claro que não conseguia entender a complexidade do sentido social de suas palavras, mas aquele movimento me fisgou. Em 1997 como já estudava na escola Brigadeiro Fontenelle continuei nas oficinas de teatro com o ator, diretor e escritor Otávio Freire, do grupo Arké e participei de montagens que Otávio dirigiu e escreveu como “Outros 500”, “Quadro nosso de cada dia” e “Há sangue na cruz”, além de participar como povo e coro nas montagens da Paixão de CriXto da paróquia, todas dirigidas por Otávio. O trabalho desenvolvido por Otávio e Genésio foram experiências elementares em minha formação. Nessa época, a escola estava bem deteriorada, tinha alagamentos sérios também e a violência tomava conta do espaço escolar. Conquistamos uma reforma estrutural e além da experiência teatro, porque finalmente construíram um auditório e minimizaram o alagamento, construíram uma quadra e via que as ações do esporte também eram bastante estimuladas na escola.
No ano de 1998, simultâneo ao movimento cultural do bairro, participei do Curso Livre de Férias da Casa da Linguagem – Fundação Curro Velho, e tive acesso as oficinas de fotografia, contação de histórias e técnicas de redação. Ainda em 1998 fiz as oficinas de iniciação teatral, dança e produção teatral do Grêmio Estudantil do IEEP com o grupo de teatro Maromba, do renomado dramaturgo Ramón Stergman, falecido em 2014, ao qual fiz parte até os anos 2000 e atuei nas montagens “Clamor amazônico”, com pauta fechada no Museu da UFPA, “Um buraco no quintal”, no Waldemar Henrique e “Uriel, o arcano do senhor”, no Gabriel Hermes do SESI.
Se a memória não me engana nas datas, foi em 1999 que acompanhei o surgimento de um movimento alternativo de jovens artistas também no bairro da Terra Firme. Sim! Brinco sempre de falar para alguns amigos mais íntimos, é engraçado, mas parece que tudo começa na Terra Firme. Será que este bairro é o centro do mundo? Não sei o do resto da humanidade, mas o meu já é a uma pá de tempo. Então seguindo, este movimento de amplas linguagens se chamou Churume Literário e organizou saraus na praça da igreja de São Domingos, no Sindicato da UFRA, e tomou para si como espaço de resistência cultural a pracinha do bairro, que tinha nome de militar, mas foi rebatizada de Augusto dos Anjos, por questões que dispensam explicações. E propiciou para todos nós uma espécie de intercâmbios culturais com pessoas de vários pontos artísticos para muito além do bairro, tendo contribuído inclusive para a resistência de espaços hoje lamentavelmente extintos, mas que abrigaram cenários da arte contemporânea belense com montagens únicas das décadas passadas, como a Morada da Arte. Se fui do Churume? Sempre me considerei. Porque para mim o Churume era um movimento de artistas livres, desengravatados, fluídos. Que se permitiam fazer arte e conhecer de arte. Lá eu conheci pessoas, como já disse, vi a arte se erguendo e lutando para se manter viva dentro de meu bairro.
Neste período também participei de muitas reuniões de organização dos pré-gritos/gritos dos Excluídos, do grêmio estudantil de minha escola que na época era o Orlando Bitar, de movimentos estudantis e partidários. E aqui demandávamos além das políticas públicas de saúde, educação e saneamento básico pelo orçamento participativo, lutavamos por um centro cultural de esporte e lazer dentro do bairro, que se aguarda até hoje.
Em 2001 ainda atuei como arte educadora do projeto “Cultura, Escola e Alegria”, da SEMEC/CEAL, nas escolas Honorato Filgueiras no bairro do Jurunas e Paulo Almeida Brasil no Bairro do Souza, tendo como culminância produções teatrais construídas durante as oficinas com as crianças e jovens que participaram do projeto.
E retomando a contação de minha relação com a arte pela ordem das datas, mesmo tendo morado fora da Terra Firme no período de 2001 a 2005 e até mesmo tendo atuado em outras áreas profissionais, fui ajudante de feirante, vendedora de cosméticos, agente de saúde, babá, auxiliar administrativo, afinal viver de arte no Brasil não é barato. Aliás para as pessoas de classe pouco abastada resta a sobrevivência e sendo eu mulher, negra, mãe solteira e na adolescência não seria fácil seguir o desafio de tirar o pão de cada dia da arte. Mas segui minha relação com a movimentos culturais e digo sem sofrimento, que na arte e no jornalismo – que é minha outra formação profissional, igualmente amada desde a infância – que encontro meu ponto de equilíbrio para a superação de dores passadas e violências sofridas.
Com Nazaré Cruz, trançadeira da marca Akomambú, vivenciei a experiência de aprimorar algumas técnicas de trançado, lógico que não com sua primazia, e montamos também por um curto período, com mais uma amiga chamada Rose, o Bazar Maria Bonita para customização de roupas, quando voltei a morar na Terra Firme, acredito que em 2005 ou 2006, não tenho muita certeza destas datas. Na época ele foi grafitado por Sandro Pardal.
Foi em 2005 ou 2006 também que ingressei no Coletivo Marginália, com os amigos de bairro e parceiros de movimento cultural Cassiane Beatriz, Leila Leite e João Paulo Fernandes. Montamos a performance Utopia, que reuniu pesquisa sobre o sentido da arte contemporânea, o sentido do ser social e seus conflitos existenciais e como ele (o ser humano) lida com este sistema voraz que o consome. Depois de um período de ensaios e juntando o material para a performance que apresentamos durante o sarau do Coletivo no espaço do Sindicato da UFPA. Não foi possível repeti-la, pois envolvia a amarração de pedaços de carniça de boi sobre nossas peles, que conseguimos na feira o bairro e depois não tivemos como reunir novamente. Depois presentei um monólogo com o mesmo nome, com texto de Leila Leite e direção de João Paulo Fernandes, também durante um sarau no Sindicato da UFRA. Também organizamos exibições de vídeos no formato de cineclube, nas passagens São João e Liberdade, com sessões infantis e outros filmes e vídeos.
Em 2002 colaborei com uma performance livre na abertura de roda de conversa sobre o aborto enquanto problema de saúde pública nas comunidades tradicionais de terreiro e na periferia, que ocorreu na Acyomy (Terreiro Afro-Religioso), no bairro da Terra Firme.
Não lembro ao certo o ano, mas acredito ter sido depois de 2008 que participei de dois desfiles promovidos por Nazaré Cruz, trançadeira da marca Akomanbú, um durante a Conferência de Igualdade Racial no Hangar e outro do festival LeboMix na praça Waldemar Henrique, em ocasião a semana da diversidade sexual.
Entre 2008 e 2009 participei das oficinas de dança, perna de pau e artes circenses do Instituto Arraial do Pavulagem, desfilando consequentemente no pelotão de pernas de pau dos cordões do Círio e Peixe Boi e Arrastão de Junho. E neste período participei ainda de montagem “Tem palhaço na praça”, da Trupe Nós, Os Pernaltas dirigida por Johnny Russell.
Faço parte da Associação Cultural Boi Marronzinho, que há mais de 23 anos constrói a cultura popular no bairro da Terra Firme, cujo barracão fica na passagem Brasília, aqui na Terra Firme. E estou com projetos de retomar montagens cênicas com o Coletivo Utopia Marginália. Não pergunta, vou te responder. Lembrando do passado, reafirmo arte para mim é vida, e minha vida e de todos que estiveram ao meu redor foi bem melhor traçada quando eu a estive produzindo. Obrigada por me fazer refletir sobre isso.”

Como diz Zélia Amador de Deus e outras pensadoras do Feminismo Negro, “quando as mulheres negras se movimentam, toda a sociedade se mexe”. As mulheres são a base de toda a pirâmide social e quando elas conseguem ser mãe, ter um curso superior e ainda ser artista, como Gê Dias, elas remexem com tudo que está nessa base social e que as esmaga. São as mulheres negras que ganham menos, são elas as maiores vítimas da violência doméstica e institucional. Mulheres negras enfrentam o racismo e o machismo de todos os lados, sem dó, sem piedade, com todo o trator da violência.
Gê Dias foi uma menina da periferia, sorridente e correndo nas ruas, enfrentou as dificuldades com brincadeira e arte e muito estudo e trabalho. Com o teatro já realizou muitos trabalhos de destaque dentro da Terra Firme, produzidas com seu professor Otávio Freire e mais tarde com o coletivo Marginalia, quando começou a discutir a elaboração e a contextualização das performances realizadas nas ruas e nos palcos.


Eu sou Leila Leite (Leila Cristina Leite Ferreira), moro no bairro da Terra Firme, periferia de Belém do Pará-Brasil, nasci em 13 de abril de 1976, sou filha da Dona Célia e do Seu Lió, ela dona de casa e ele pedreiro. Fiz parte do Coletivo Churume Literário, faço parte agora do Coletivo Utopia Marginalia, organizo junto com Lucélia Ferreira, Geise Dias, Jorgete Lago, André Leite, Alanna Souto, o Podcast Utopia Marginalia, onde trazemos algumas pessoas importantes para desvendar suas histórias e sua militância, poesias, músicas e principalmente, utopia. Sou gateira. Na academia, sou graduada em Ciências Sociais, mestre e doutora em antropologia, faço parte de alguns grupos de pesquisa, Visagem e Gepem e sou editora da Revista Visagem.