BREVE REFLEXÃO SOBRE A NECESSIDADE DE ARTE

Por André Dvorak

Portinari

Maio de 2020, tempo histórico e incerto, cuja única certeza é um isolamento, cruel e resistente para famílias, necessário, todavia, doloroso. Tempos de conjecturas políticas nefastas e de resistência ao sufocamento das forças de trabalho e conquistas históricas. Resistir ao vírus e ao estado opressor. O vírus é uma novidade, a opressão é trabalhada e retrabalhada há décadas, maquiada, pintada de verde e amarelo, fantasiada de novas formas circenses. Além de comprada, imposta. Na lógica da realidade, uma se sobressai: a desigualdade. Essa se alastra e deixa rastros, mortos e feridos. Hoje, onde gritos fanáticos são ouvidos com explicitude e quiçá com orgulho, a arte desempenha um papel de antídoto. A arte amortece o impacto, ressignifica a humanidade, transmuta-se: panfletária, necessária, impactante. Nada além do que já acontece na periferia, na construção do imaginário artístico, com um viés de abraço oculto, colo benigno e ânsia de mudança e salvação. Como seria o mundo atual, onde cicatrizes foram abertas, onde as sequelas afetarão todo uma geração, sem distinção de classe ou raça, como seria essa distopia real, por si só sufocante, sem a arte?

A resistência nas letras de Carolina Maria de Jesus, ao golpe militar, dos movimentos sociais, coletivos e autônomos. O fenômeno da arte de rua não vem de hoje. Todavia, Todo esse imaginário se dilui nos nichos e deságua em gritos sufocantes que hoje, em plena pandemia, revisita com força para co-existir com nossa sede de viver.

Já vivíamos uma distopia. As forças políciais já estavam com botas e fuzis sobre os pescoços das comunidades, já havia um invisível deserto de ações que se retroalimentam a cada dois anos, formando carreiras políticas e universos paralelos de classes regados à desdém e impunidade, já existia o isolamento, um abismo racial estruturado. Mulheres e o mundo dos homens, violência domesticada e reflexo cultural enraizado. Já existiam palafitas, bueiro e crianças raptadas ou violentadas. Um vírus colapsando um SUS já estava sendo sentido, uma pandemia de privilégios, asfalto sobre a vida, arranha-céus sobre pontes de madeira e saneamento. Um Bus Rapid Transit atravessando o coração da UPA e rasgando o futuro. Já havia uma educação que violenta professores e alunos e esses se violentam mutuamente com facas e medo. Arte já havia feito a leitura e mesmo que banalizada e engolida, é atemporal, renasce mutante, porque é uma necessidade indomável. Infelizmente não é a vacina para o fim das mazelas, além da pandemia.

Deixamos de ser, humanos, no meio do caminho e as dores da arte e da humanidade se tornaram apenas paisagens abstratas?


André Dvorak (João Roch) é escritor, contista, servidor público federal e morador da cidade de Marituba – Pará. Membro da Editora GatoEd, colaborador da Revista Criado Mudo (na plataforma medium), curador da Revista Kasmurro e autor da página de literatura Microcontexto (Instagram). Foi Publicado nos caderno de prosas da Revista Luso-brasileira ‘Subversa’ (2016 e 2018), na Revista ‘Trino’, nas antologias da CBJE (2015) e do site Álbum de Memórias em 2020. (Físico e E-book) e foi finalista do concurso literário das Universidades federais do Pará em 2018. João Leno Lima é pai do Júlio.