Do outro lado do rioOs movimentos dos braços estavam tão acelerados que o remo mal terminava de impulsionar a canoa, de um lado e de outro, naquelas aguas barrentas da Baía do Guajará. E quando a respiração pediu ajuda, ele parou de remar e colocou o instrumento deitado em suas pernas. Olhou para o fundo da canoa, mas não era o fundo que via. Não via nada, exceto, o terror da lembrança daquele acontecimento ocorrido minutos atrás. A boca aberta, desesperada, e os olhos rebaixados ensaiaram um choro. No entanto, Antônio não chorou. Penetrou de novo o rio com a madeira nas mãos, porém, dessa vez, de modo suave, já que a distância considerável entre ele e a cidade de Belém já lhe causava certo “alívio”.
Completado mais da metade da travessia, avistou a sua casa e a areia bege localizada na frente dela. E mal o fundo do casco tocara em terra firme, Antônio saltou daquela embarcação minúscula e caiu na água. Nadou um pouco até a beira da pequena praia formada pela vazante da maré, depois, jogou o seu corpo contra o chão. Abaixou a cabeça, deixando com que a terra pintasse os seus cabelos crespos e permitiu, dessa vez, com que as lágrimas viessem acompanhadas de vários sons agonizantes feitos pela boca. Em seguida, virou o pescoço, como se esse membro estivesse lutando contra o ar e olhou para o outro lado do rio. Mesmo reduzida pela distância, a capital, ainda trazia a origem daquele acontecimento na memória de Antônio e que, logo, o fez recordar tudo outra vez…
– Fio, eu num quero que tu passe por essa miséria toda de vida que o teu pai passou e que tu tá passando com eu mais a tua mãe.
– Pai…
– Promete fio. Promete que num vai deixar o teu fio passar por isso também?
– Pai…
– Promete fio?
– Paaaaaiiii.
Antônio acordou, olhando para o lado e para o outro daquela floresta com a respiração ofegante. O rápido cochilo que deu nos pés da seringueira lhe trouxe aquele sonho tão perturbador com o pai. A testa estava banhada de suor. Levantou-se, de modo abrupto, tirou o facão da cintura e lançou um golpe sem piedade na mesma árvore que acabara de lhe dar o aconchego de um descanso. O látex saltou longe. E os outros seringueiros observaram, imóveis, aquela cena sem entender nada. Antônio colocou de volta o facão no lugar, botou o chapéu de palha na cabeça e saiu sem se despedir de ninguém. “Mudar de vida e sair disso.” pensou. E, em seguida, quando estava prestes a chegar a sua casa, Antônio deu uma pausa, inesperada, nos seus passos acelerados que, até mesmo, o próprio corpo não contava com isso. Algo havia chamado a atenção do seringueiro, mas, a principio, ele ficara imóvel. E, em seguida, a cabeça mexeu para o lado como se estivesse com receio de encarar aquilo. Viu. Na verdade, a imagem da mansão suntuosa do dono do seringal, no qual Antônio era “subordinado” deste, desceu arranhando a garganta. Os olhos dele subiam e desciam pelo globo ocular, passando a vista por cada madeira de lei envernizada da residência. Depois, olhou, mais a frente várias palhas, formando o telhado do seu próprio barraco. Abaixou a cabeça, balançou ela de um lado e de outro e a mistura de ódio com lamentação fazia com que o nariz tremelicasse de modo esdrúxulo.
Uma criança abriu a porta principal e saiu para brincar no lado de fora daquela casa enorme. Ela estava trajada com um vestido de renda verde-água, no qual um laço de seda branco enrolava, de modo caprichado, a sua cintura. A menina ainda trazia em seus braços uma boneca francesa de cabelos encaracolados e ruivos. Antônio olhava tudo aquilo, viajando em seus próprios pensamentos.
– Oh! Oh Antônio. Que tá fazendo parado aí? -Questionou o seringalista, saindo pela porta principal da casa com as mãos na cintura. – Veio conferir as tuas dívidas foi? – Disse o dono do seringal, erguendo a sobrancelha direita e dando um sorriso irônico.
O coletor de látex saiu sem dizer uma única palavra. E quando Antônio chegou a sua casa, parou, do lado de fora, e observou as paredes de barro de seu casebre. A testa se franziu. Abaixou a cabeça de novo e quando esta se ergueu, a ira sentida incendiou os dois olhos castanhos claros. Suspirou. Profundo. Sentou-se ali mesmo e apoiou os braços nos joelhos, observando o rio e a cidade do outro lado.
– Tônio? Já chegou? – Questionou a esposa de Antônio, Amana, chegando no casebre deles e esticando o sorriso ao máximo que pôde, quando viu o marido.
Antônio olhou para ela e direcionou a sua visão, de novo, para o outro lado do rio. Não a cumprimentou. O sorriso de Amana foi desabrochando como uma flor na beira da morte. E, em seguida, tirou o filho deles do colo, no qual estava enrolado numa espécie de tipoia e o colocou no chão. A criança reconheceu o pai, sorriu e pronunciou algumas palavras ininteligíveis. Amana voltou a sorrir, quando falou mais uma vez com o marido.
– Vendi mais banho de ervas pras mulheres lá dos outros seringueiros. Peguei uns trocado pra ajudar nas “divida” com aquele “cão dos infernos”. A casa do Firmino e da Nice tá de tijolo já. Bonita! – Disse Amana, gesticulando de modo desordenado. – Sabe que acho que tô fazendo cada vez melhor esses “banho”? E se continuar assim, podemos pagar as dividas e sair daqui Tônio.
Amana agachou-se na frente de Antônio e apoiou os cotovelos nos braços dele. O seringueiro continuou olhando para o rio sem alterar, sequer, uma única expressão do rosto. No entanto, os passos do filho, em sua direção, fizeram com que ele saísse daquela atmosfera de meditação tenebrosa. Olhou para o curumin, mas conseguiu enxergar, somente, um pedaço de pano miserável que cobria as partes intimas da criança, como também o “caminhãozinho” de madeira, feita pela mãe, que estava na “mãozinha” direita dele. Antônio levantou-se, de modo abrupto, desequilibrando Amana que, por consequência, caiu no chão. Olhou para o filho com os olhos inundados. Ergue-o, depois, deu- lhe um abraço. Depois, pôs ele de volta no chão e correu em direção a sua canoa. Remou.
Antônio chegou do outro lado do rio. O sol intensificava a sua pele marrom naquela manhã. Atracou a canoa em outra embarcação no porto e caminhou pelo trapiche. Na faixada de vários botecos, os avisos, escritos com uma caligrafia não apresentável, anunciavam algumas ofertas de trabalho. Ele lia todos e ignorava-os, acelerando os passos para sair o mais rápido possível daquele odor de pescado. E, logo, quando saiu da área portuária para, enfim, chegar às primeiras ruas da capital, as narinas foram invadidas pelo doce perfume francês das madames que circulavam em seus automóveis, conduzidas pelos seus chauffeurs particulares. Entorpecido, o seringueiro fechou os olhos como se estivesse entrando em um sono profundo. “Melhor isso do que aqueles catinguentos que trabalham comigo.” pensou.
A buzina do bonde fez com que Antônio despertasse daquele devaneio e, mesmo com o susto, ele, em seguida, ficou com a boca aberta e os olhos arregalados quando viu aquele coletivo. Sempre ficava assim, por mais que não fosse a primeira vez que via aquela modernidade. A cena de um cavalheiro que se trajava, de modo elegante, curvando-se para beijar uma senhorita, despertou certa curiosidade no coletor de látex. Com isso, Antônio reproduziu todos aqueles gestos polidos. Porém, não obteve sucesso. Pois se desequilibrou ao inclinar-se para frente e, por consequência, um tombo inevitável levou-o ao chão. Por conta da tentativa mal sucedida, deu um soco no chão e bufou como um bicho selvagem.
Levantou-se, esfregou as mãos umas nas outras para tirar a terra que ficou por conta da queda e continuou o seu passeio por Belém. Chegou, enfim, em uma praça ocupada por várias mangueiras, no qual as copas dessas arvores projetavam sombras aconchegantes para os que passavam por ali. Antônio deu voltas em si, admirado, por aquele lugar. A imagem dos coretos sempre despertavam gargalhadas bobas nele. Mas, logo, aquele estado de frenesi foi se esvaindo como fumaça, quando a lembrança de casas rusticas, quase, dentro dos rios; a igreja pequena caindo aos pedaços e a visão deplorável de bichos e frutas mortas, espalhadas pelo solo da mata, fizeram com que o ribeirinho abaixasse a cabeça e soltasse um palavrão.
De repente, um policial olhou para Antônio, analisou-o da cabeça aos pés e concluiu que o rapaz não fazia parte daquele contexto, aproximou-se dele com cautela e disse:
– Oh! Oh, rapaz… – Chamou o agente policial, segurando a ponta de seu cassetete, enquanto caminhava em direção a Antônio.
Porém, o companheiro de Amana, a partir do instante que escutara o chamado do guarda, correu sem querer saber, ao menos, o que o segurança desejava, esbarrando nas damas e cavalheiros que passeavam por ali. Entrou em uma rua desconhecida. E, mais adiante, avistou uma porta escancarada nos fundos de um estabelecimento. Pensando em fugir o mais rápido possível das perseguições do policial, invadiu aquele lugar sem pedir licença, passando por um compartimento, no qual cozinheiros, devido ao trabalho intenso, nem perceberam a sua presença eufórica.
Seguiu em frente. Adentrou em outro compartimento daquele lugar. Concluiu, então, que estava em um banheiro com uma decoração requintada. Olhou o seu reflexo no espelho retangular e viu o rosto encharcado. De repente, a abertura sanfonada de uma das cabines movimentou-se, deixando Antônio em posição de ataque. E ao ver alguém saindo dali, o seringueiro, de modo impulsivo, lançou um soco no rosto de um jovem que, por conta do impacto do golpe, caiu, desmaiado, no chão, sem ao menos ter tido o direito de se defender.
Com as mãos na cabeça e o coração como uma bomba relógio no peito, Antônio não sabia o que fazer diante daquele corpo. Abaixou-se, sentiu o pulso vivo e vasculhou os bolsos da calça para ver se encontrava alguma identificação da vitima. A mão direita esbarrou na carteira do desconhecido e Antônio a ergueu no ar. “Tu vai crescer na vida fio sem mexer nada de ninguém.” O conselho do pai ainda era tão presente na cabeça dele. Em seguida, pusera o porta cédulas de volta em um dos compartimentos da calça. Mexeu no paletó e encontrou uma passagem de retorno para o dia posterior àquele, no qual o destino ele, não soube identificar. Portanto, colocou tudo no seu devido lugar, levantou-se em um só pulo e caminhou em direção a porta da saída.
E ao tocar a maçaneta com a ponta dos dedos, congelou-se no tempo por alguns segundos. Depois, olhou para aquele corpo imóvel e aproximou-se dele novamente. “Ah! Que mal tem? É só por um dia.” sussurrou. Em seguida, tirou as roupas daquele homem e as vestiu. Enfim, saiu.
Antônio saiu do banheiro com uma postura imperial, ajeitando a gola e esticando as mangas do paletó. Flutuava ao andar, como se os passos caminhassem em nuvens que, a qualquer momento, poderiam se desmanchar embaixo dos pés do, então, “Sr. Antônio Soares”. Fez questão de parar no meio do restaurante para atrair olhares. Sem sucesso. Foi até ao bar e olhou a variedade de bebidas no cardápio. Não pediu nada, porque não era essa a intenção.
– Oh companheiro! Que horas são, por favor? – Perguntou o Sr. Antônio a um cavalheiro, pigarreando, segundos antes, de engrossar a voz com esse questionamento.
Mas, não obteve resposta. O cavalheiro olhou para o relógio, pagou o drinque consumido e saiu sem pronunciar nada. O Sr. Soares deu de ombros e nem se importou com isso, pois a prioridade era aproveitar ao máximo aquela “nova” condição social. Saiu daquele estabelecimento.
Chegou ao teatro e a imponência neoclássica deste já não impressionava tanto ele. Era 13:30. E o Sr. Antônio nem sentia fome. Entrou em uma fila. “Próximo, por favor!” chamou o atendente da bilheteria. O “ex-seringueiro” se aproximou da cabine, tirou a carteira do bolso, mostrando um sorriso orgulhoso ao atendente e retirou dela uma quantia considerável. “Próximo, por favor! Vamos lá! Quem é o próximo? Mademoiselle e Monsieur, por favor!” Mas o Sr. Antônio estava ali; na vez. Ele fez um sinal com a mão direita, repugnando a atitude daquele funcionário. Todavia, entrou assim mesmo. Lá dentro, ele não prestou atenção em nada. Fez questão de encarar cada uma das pessoas que estavam ali como se quisesse informa lós da sua presença. Sem êxito mais uma vez.
Espetáculo finalizado. E o Sr. Antônio trazia uma postura murcha na saída. “O quê que acontece com essa gente? Tô igual a eles.” questionou-se. Todavia, o desânimo, logo, deu lugar para algo novo: os fios dos cabelos dela chegavam até a cintura, envoltos em uma trança perfeita. As maçãs do rosto eram rosadas como um pêssego, entrando na maturidade. E o azul do céu fora emprestado para os olhos dela. Era a mulher mais bonita que tinha visto na vida. Pelo menos, era o que ele acreditava. Ele. De repente, ela partiu desacompanhada.
Resolveu segui- lá. Ela entrou em um bosque, no qual as famílias também se reuniam com as suas crianças para passear. Em um determinado ponto daquele lugar, viu a jovem acariciando as flores de uma arvore, posicionada a alguns centímetros da altura dela. Caminhou em direção àquela mulher com afinco, assim que inspirou e expirou com determinação. Ela, por sua vez, deixou de entrelaçar as pétalas em seus dedos e virou-se no mesmo sentido dele. Ele arregalou os olhos, pois estranhou a atitude, inesperada, daquela dama. E quando o impacto dos corpos era inevitável, algo surpreendente aconteceu: a jovem passara pelo meio do Sr. Soares como se ele fosse um grande vazio. A boca, desacreditada, dele não emitiu nenhum som. Ficou petrificado.
Enquanto isso, a mulher caminhava como antes. E ainda brincava com a molecada que esbarrava nela. Antônio Correu. Chegou ao porto e desamarrou a canoa o mais rápido possível. A tarde ia se despedindo.
Os movimentos dos braços estavam tão acelerados que o remo mal terminava de impulsionar a canoa, de um lado e de outro, naquelas aguas barrentas da Baía do Guajará. E quando a respiração pediu ajuda, ele parou de remar e colocou o instrumento deitado em suas pernas. Olhou para o fundo da canoa, mas não era o fundo que via. Não via nada, exceto, o terror da lembrança daquele acontecimento ocorrido minutos atrás. A boca aberta, desesperada, e os olhos rebaixados ensaiaram um choro. No entanto, Antônio não chorou. Penetrou de novo o rio, com a madeira nas mãos, porém, dessa vez, de modo suave, já que a distância considerável entre ele a cidade de Belém já lhe causava certo “alívio”.
Completado mais da metade da travessia, avistou a sua casa e a areia bege localizada na frente dela. E mal o fundo do casco tocara em terra firme, Antônio saltou daquela embarcação minúscula e caiu na agua. Nadou um pouco até a beira da pequena praia formada pela vazante da maré, depois, jogou o seu corpo contra o chão, abaixou a cabeça, deixando com que a terra pintasse os seus cabelos crespos e permitiu, dessa vez, com que as lágrimas viessem acompanhadas de vários sons agonizantes feitos pela boca. Em seguida, virou o pescoço, como se esse membro estivesse lutando contra o ar. Olhou para o outro lado do rio. Caminhou em direção a sua casa. Chorava tanto que o abdômen se comprimia. No meio do caminho, encontrou Amana. Deu uma pausa no choro e observou o fundo dos olhos dela. Em seguida, deu-lhe um abraço que estalou as costelas da esposa. Chorou de novo até os cílios superiores se unirem com os inferiores.
E quando estes se abriram, Antônio afastou-se em câmera lenta de Amana e, de repente, começou a tirar aqueles trajes que nunca lhe pertenceram. Jogou-os no chão com violência. As roupas se esfarelaram e juntaram-se com o ar. Amana sorriu, pulou no colo do marido e falou:
– E, então Tônio? D outro lado do rio é melhor ou você pode melhorar o seu próprio lado?
Edson Campos: Louco e desesperado. A loucura por deixar, simplesmente, com que a minha imaginação se torne tão forte, a ponto de tudo transformar-se em poesia e narrações. E o desespero vem do tormento dos meus irreconhecíveis personagens que perturbam, de modo enlouquecedor, os meus ouvidos para que as suas historias pessoais possam ser contadas o mais breve possível.