BAGAGEIRO E CLARICE LISPECTOR DE LUCAS ALMEIDA

BAGAGEIRO

Trago no bagageiro meus primeiros passos As primeiras letras que me foi ensinado O primeiro som dos cântaros dos pássaros Trago no bagageiro meu primeiro encanto A primeira lágrima O encontro com os literatos Trago no bagageiro O beijo roubado O samba rasgado O tambor de crioula No paço, no laço, Tia Ciata, e o samba rasgado Trago no bagageiro As lembranças roubadas As noites que te procuro ao meu lado O amargo e o doce da vida Que vivi ao teu lado Trago no bagageiro Meu primeiro contato Com a dança de um bailado Que o vento leva como fumaça Que terminou com o último ato Trago no bagageiro Uma saudade, um vazio, Um lamento, um pesar. A voz a ecoar Que guia, meu caminhar. Trago no bagageiro O medo de não chegar O tempo presente As amarras que o tempo dá O sentimento de liberdade Que não posso explicar No bagageiro da morte Quem sabe a sorte, Está a brincar? No trapézio da vida Só pula, Quem tem rede para lhe amparar No bagageiro tem doce, tem cocada, Tapioca, angu de farinha, Tem afeto de dona lica, Que trago no meu bornar. No bagageiro tem sertão Tem sertânia, tem Marcelino, Tem poesia jorrando No coração do agreste Nesse bagageiro, trouxe Clarice Oscar Wilde me disse: “Viver é um caso raro A maioria das pessoas existem”… No bagageiro a saudade do meu Recife As brincadeiras no pé da fogueira Meu santo Antônio querido Me traga um amor inaudito No canto de dona sinhá No bagageiro não trago nada, Que me faça perder o contato, Com os meus antepassados. Trago a poesia que li Na “Bagagem” do livro de Adélia Prado Elogio rasgado de Carlos Drummond de Andrade No bagageiro do canto Do remanso Do descanso Trago todo meu canto Debaixo do meu pé de Ingá.

Lucas Almeida 04/11/2019

Clarice Lispector

Clarice, não era russa nem ucraniana,
Não era carioca, nem pernambucana,
Era do Mundo!
Hermética talvez…
Simples mas intensa,
Era poesia, lucidez,
Era humana, camaleoa, com seus olhos cor de violeta, que não se podia desvendar apenas observar
Como quem observa o romper da aurora para um novo amanhã contemplar.
Clarice não era minha, não era sua, não era nossa
Era da vasta imensidão do mar.
Amor, liberdade, humanidade, diplomacia
Mas também mineirinho, que com treze tiros, morreu levando consigo o meu próprio eu.
Clarice, olhar penetrante na alma, faíscas que a poesia irradia preenchendo a nossa vida vazia,
Como leite do peito de minha mãe, onde a vida começa o seu ciclo de poesia,
Triste vida vazia, se não ouviste a poesia de Clarice Lispector!
A morte é como o meu gato , quando me procurar dentro do meu apartamento,
Disse Clarisse, quando indagada acerca da morte.
O que é a morte diante da grandeza de Clarice? Nada, menos que nada.
Hoje recito Clarice, e nem mesmo a morte com toda sua majestade, pode apagar a beleza e a poesia de Clarice.

14/09/2017 Gama


Lucas Marcone Almeida é poeta e Professor de História Formado pela UNINOVE. Trabalha na rede municipal de Cajamar/SP e desenvolve rodas de leituras com alunos dos Projetos de cultura afro e indígena.