JOÃO E A FOTOGRAFIA

"Porque se chamavam homens Também se chamavam sonhos E sonhos não envelhecem Em meio a tantos gases lacrimogênios Ficam calmos, calmos Calmos, calmos, calmos... E lá se vai mais um dia... " Clube da Esquina 2 - Lô Borges

(Foto postada no facebook em 17 de Dezembro de 2017)

A fotografia nem sempre foi acessível a todas as pessoas. Desde sua origem, no século XIX, ela chamou a atenção como o registro da imagem real de espaços, paisagens e pessoas, trazendo vários questionamentos sobre sua existência. As artistas questionavam a sua utilidade, seria a fotografia arte ou ciência? O medo de perder o prestígio de seus trabalhos como pintorxs, artistas migraram de seus quadros para o encanto que sentiram com a fotografia, o imperador do Brasil se apaixonou pela fotografia imediatamente, Dom Pedro I, trouxe o Daguerriótiopo, a primeira máquina fotográfica, para o Brasil assim que foi lançado na França por seu inventor Daguerre. Mas, por muito tempo, ela ficou restrita a elite econômica. No século XX pessoas com um poder aquisitivo menor conseguiram se aproximar mais das máquinas fotográficas a partir das portáteis e foi então que muitxs fotógrafxs pobres e negrxs surgiram. Foi dentro desse contexto que começou o nosso fotógrafo aqui, uma criança nascida em Fordlândia, cidade do interior do Pará, que em meio a suas brincadeiras descobriu a fotografia usando uma máquina descartável, foi aí que aprendeu a jogar sobre o mundo o seu olhar diferenciado, tomando todo cuidado para fazer a foto certa, pois eram apenas 36 poses, diferente do que ocorre hoje com as máquinas digitais que estão nas mãos de todxs e milhares de fotos podem ser realizadas. Foi a partir do que alguns amigos lhe diziam sobre acharem sua fotografia diferente das de outras pessoas, chamaram sua atenção para o fato de possuir um olhar que não era comum, suas fotos não retratavam o mesmo que qualquer um.
Então, vamos deixar que o João diga o que a fotografia significa para ele:
Ser um apaixonado pela arte de fotografar é antes de tudo um exercício de reencontro. Cada fotografia carrega consigo um pouco de um eu que está sempre como alguém que se debruça na janela para observar o cotidiano como uma mente sempre inquieta.
Ter estas fotografias organizadas em uma estante virtual é um ato de desatar nós. Pois, chegar até este ponto é parte de um esforço para superar a timidez e se preparar para a crítica e isso é algo que veio com o tempo e com o permanente amadurecimento da ideia.
Neste sentido dar um retorno para um projeto que busca dar esta visibilidade é em si uma tarefa que exige bem mais que disciplina, mas, sobretudo, uma paixão desmedida.
Desta forma, igualmente apaixonante é a ousadia de fazer um trabalho que carrega consigo uma característica de uma quase autobiografia através de imagens, tendo em vista que muito das fotografias aqui presentes conotam um pouco desta desafiadora travessia que é a vida.
Rever cada fotografia entre tantos milhares de arquivos e ainda se dedicar a difícil escolha para que tenhamos a composição do que este projeto se propõe, foi um exercício de enxugar lágrimas e se dar ao luxo do riso solitário diante da tela do notebook em altas horas da madrugada na companhia da xícara de café e de muitas histórias que cada fotografia me revelava.
É este gostoso e desafiador exercício que certamente move tantos apaixonados escritores em nos traduzir com palavras aquilo que somente o coração é capaz de nos contar com as suas palpitações.
Concebo assim, a fotografia como um exercício de caminhante, concepção resgatada de uma fala muito pertinente de meu pai que diante dos meus olhos dizia esperar de mim a compreensão dos diversos ensinamentos que esta travessia nos proporciona, seja nos momentos de calmaria e nos de tempestade.
Foi por esta satisfação que meus olhos testemunharam com muitas lágrimas e assim, fui me vendo em cada foto de tantos rincões nesta caminhada e em todas elas, a viva lembrança dele e de minha mãe ali, lado a lado comigo segurando as minhas mãos como um farol a me guiar sempre.
As fotos estão agrupadas por temas muito mais conotativos do que denotativos em si, trazendo muito do que o contexto me permitia ler daquela realidade.
(João Neto Sousa Rodrigues)

Mãe de todas as horas



“Porte de Lenha, tu nunca serás Liverpool” (Torrinho)



Testemunha silenciada



“[…] Tô chegando nessa beira para fugir do tempo feio” (Amadeu Cavalcante)

“[…] E dizem que ela é morena
É uma pérola que brilha nesse rio” (Beto Paixão)


“[…] Você tem fome de quê” (Titãs)


Benditas sejam todas as mães


Ludicidade e religiosidade

A fotografia encanta, informa, analisa e sensibiliza, tem diversas funções, mas cada uma traz registrado um momento, uma palavra, um olhar que é exclusivo de cada pessoa que usa as lentes para falar com o mundo. Suas fotos trazem um texto, uma poesia, o trecho de uma música e ele mostra sua preocupação com a leitura que pode ser feita: Os textos são sempre um recurso perigoso pois o visitante da obra sempre olha com a bagagem que traz e o julgamento que lhe convém, mas às vezes gosto de arriscar. Afinal, o que é a arte se não uma sequência de muitos riscos a serem corridos.


João Neto Sousa Rodrigues é um desses encantados pela máquina fotográfica e por aquilo que consegue falar com ela.


Eu sou Leila Leite (Leila Cristina Leite Ferreira), moro no bairro da Terra Firme, periferia de Belém do Pará-Brasil, nasci em 13 de abril de 1976, sou filha da Dona Célia e do Seu Lió, ela dona de casa e ele pedreiro. Fiz parte do Coletivo Churume Literário, faço parte agora do Coletivo Utopia Marginalia, organizo junto com Lucélia Ferreira, Geise Dias, Jorgete Lago, André Leite, Alanna Souto, o Podcast Utopia Marginalia, onde trazemos algumas pessoas importantes para desvendar suas histórias e sua militância, poesias, músicas e principalmente, utopia. Sou gateira. Na academia, sou graduada em Ciências Sociais, mestre e doutora em antropologia, faço parte de alguns grupos de pesquisa, Visagem e Gepem e sou editora da Revista Visagem.