TRÊS TEXTOS DE BÁRBARA SANTOS


se tu tivesse aqui, nós dois, olho no olho, eu te tocaria a pele inteira.

foi naquela tarde quente e nua que constatei, pele é meu órgão preferido. todas as sensações que me percorrem quando as terminações nervosas se encontram. basta um centímetro de pele encostada pra fazer tremer um corpo inteiro.

se eu fechar os olhos sei que quase te sinto, saboto a distância invocando o cheiro, o gosto e até a temperatura. passeio pelos teus desenhos. acho lindo o jeito que a gente se marca. a língua que nossas peles falam, se chamam, se aguardam.

essa troca de transpiração faz falta, viu? no próximo encontro vou te demarcar com a boca, com calma, pra contar minha saudade a cada pedaço que te monta.


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A autossabotadora voltou



hoje ela ganhou de novo. se eu puder fazer um apelo, com sua licença e pelo amor de deus, tira essa mulher de perto de mim. quando ela vem meu corpo paralisa e a cada passo em minha direção é um novo músculo que se trava, uma a uma vejo minhas ideias virando cãibras. ainda assim eu alimento a fera. ela sabe tudo que não deveria sobre mim, cada ponto fraco que escondo debaixo de roupas e afirmações. me revira do avesso e me enxerga nua, daqueles ângulos que eu não gosto. hoje ela veio e fiz seu prato preferido – medo do fracasso tenho de sobra na despensa. mas amanhã ganho eu! e sigo otimista até o próximo arrepio na espinha que anuncia: a autossabotadora voltou._____


Escondidinho de choro




na cozinha, minha especialidade é o escondidinho de choro.

aprendi logo depois que te encontrei.

enquanto escrevo isso, duas pessoas no cômodo ao lado riem do que parece ser um vídeo de uma foca imitando um macaco,

sem fazer ideia de que eu choro há horas.

vieram perguntar se eu queria mais janta.

neguei, de luz e cabeça baixas.

o segredo é esse, evitar os olhos e abafar o choro ainda aqui, na garganta.

era assim que eu fazia pra não te incomodar. desculpa, pra não NOS incomodar.

eu também não queria ter que falar sobre isso, não tinha nada de novo. eram os mesmos motivos que eu já sabia, tu já sabia, mas ninguém fazia nada a respeito.

eu não conseguia te deixar,

tu nunca conseguiu ficar sozinho,

ponto.

naquele palco as falas eram bem decoradas:

– nunca mais! – tu dizia – agora eu vejo onde errei e tudo vai ser diferente.

aí era a minha deixa:

tirava a roupa, vendava os olhos e

a personagem estava feita.

nunca vi alguém se doar tão bem ao papel.

na vida real era diferente, ninguém muda sem querer mudar.

eu adiava a vida real.

“amanhã, quem sabe”.

era mais fácil me trancar e preparar a banheira:

metade água doce, metade salgada.

shh, bem baixinho.

às vezes nem todo choro dissipa a dor, então eu acertava minhas coxas com os punhos cerrados. socos fortes e silenciosos – pra gente não ter que falar sobre isso.

shhhh.

quando as nódoas apareciam tu fingia que não via,

que bom ator.

nesse pacto silencioso de nós dois,

nunca fui tão só.

tua presença era como a de um fantasma,

invisível, mas intimidante.

hoje, no alívio da tua ausência, ainda sinto fisgadas de tudo que me atravessou. ainda tento reparar os estragos.

é que nessa peça, nem a plateia saía ilesa.

em uma névoa de paranoias e inseguranças, alguns levantaram e fugiram atordoados no meio do segundo ato. foram poucos os que resistiram até o final, sem aplausos.

quando tirei a venda,

era quase tarde demais.

levou tempo para me desculpar,

limpar os estilhaços

e centralizar meu eixo.

ninguém morre de sofrer, é verdade

mas eu me matava todas as noites,

pra que minha personagem acordasse do teu lado.