
Levanto, rego as plantas (cansei de matar até cactos por sede) e ponho isso na memória. Deixo o sol entrar gostosamente na sala. Escancaro a porta da sacada e pergunto: Quem vem lá? Vem o dia com seu alvoroço, sons de buzinas e carros que fazem vrum vrum. E sim, uso uma onomatopeia infantil para ter a percepção de criança frente ao mundo que se apresenta tão logo despertamos do sono desencadeador do inconsciente. Ao acordar, o consciente é que vira protagonista. Brinco com singular e plural, com uso da silepse que aprendi na quinta série (6º ano).
Atrevo-me a escrever e que delícia ser assaltada por um espírito de escrita (uso artigo indefinido mesmo, pois não o conheço). Pensei em pegar o computador, mas desisto e corro para o caderno azul sempre apostos e uma caneta sem tampa de tinta roxa que achei na cabeceira da minha cama. Caneta que não precisa de uma tampa obrigatoriamente me parece um tanto revolucionária. Vive por si, sem apego a ninguém. Ora escrevo verbos no passado, ora no presente sem respeitar paralelismo. Eu sei! Sigamos!
Sinto o estômago doer. É fome, aquela matada em poucos instantes. Não aquela com sensação de eterna, da soleira da porta de madeira sem perspectiva de melhora e que tem o raiar do dia como sentença de morte, sem dignidade pela pobreza extrema. “Deus quis assim”. Argumento feudal ainda é usado por muitos nos dias atuais, só que parafraseado em: para melhorar, basta se esforçar. Pois bem, fechando os parênteses, dizia que sinto fome e tudo porque não segui as regras ditas naturais de levantar, escovar os dentes, lavar o rosto, ajeitar os cabelos bagunçados, tomar café é só então fazer outras tarefas.
Isso tudo me lembrou um fato: há dias, esse meu “mal costume” de não seguir exatamente as regras sociais avulsas (e até de higiene na ordem estipulada) foi passivo de problematização. Disseram: “Seu problema é que não gosta de seguir regras!” Quanta fúria tinha naquela frase! Que pensei em pedir perdão aos céus pelo outro que se apresentava irredutível com o intuito de cristalizar todas as regras. Ainda ilustrou a frase com: “Nem uma receita de bolo você segue à risca.” Parecia uma grande blasfêmia ao Deus da Gastronomia não seguir a receita. Eu, ingênua, retrucava: “Coisa mais normal pessoas cozinharem sem seguir com rigor a receita, só “de olho”, como se diz. Ainda mais quando é algo feito muitas vezes.” Tudo em vão! Claro!
Bem, não descarto por completo a assertiva inicial dita pelo outro, uma vez que tenho uma mania estranha: olhar desconfiada para algumas regras. Parece que elas me beliscam por debaixo da mesa, querendo atenção e me instigam a pensar e acreditem: nem sempre quero. É cansativo demais. Elas me beliscam insistentemente até que paro as mil tarefas (crianças, isso é uma hipérbole) e olho no fundo dos olhos delas (só disse isso para ser poético e intenso) e me permito estranhá-las. Tornando-as então como regras estranhas de tanto que as fito, ponho-me a indagá-las, levantar questões, cruzar informações. Daí resolvo se continuarei a segui-las ou não. Não é nada demais o que faço. Aprendi a fazer isso com milhões de pessoas por aí e elas sim fazem coisas geniais, lembrando que tenho por critério o bem coletivo, a garantia de direitos e negativa de violências. O individual é problema de cada um.
A pessoa, que tira do seu tempo para me crucificar como a “herege não cumpridora de regras”, lembra muito os que usam argumento feudal- dito antes- para explicar as questões sociais. Nunca querem que nada mude de lugar, seja coisa, pessoa, ideias ou contratos sociais. Sem tirar móveis dos seus lugares, fazendo uma bagunça para depois arrumar, nada muda e os prejudicados, seja pela poeira escondida que ataca a rinite, seja pela sensação de esmagamento, continuam tolhidos de seus direitos. São os que se incomodam com quem faz faxina, com quem tira o móvel da esquina que revira o dedo mindinho do pé dos mais vulneráveis. Eles gostam do intacto, custe o que/quem custar. E vale deixar claro que não se trata de transgredir regras por maldade ou falta de caráter.
Como dizia no começo: levanto, rego as plantas e ponho isso na memória, pois vou gostar de lembrar quando tempos vindouros me tirarem desse agora, e só se lembra do que impactou, afagou a alma e provocou uma explosão retumbante ou discreta de boas sensações como o ato de regar plantas. A dor também faz lembrar, mas deixemos isso pra lá, porquanto preciso terminar esse blá, blá, blá (até rimou). O escovar os dentes e o tomar café (artigo definido, pois estes elementos conheço) podem esperar um bocadinho. Inverter a ordem/posição das coisas ou mesmo questionar A ORDEM (ato de ordenar, mandar) imposta, rígida, fixa, opressora não devia ser pauta de discussão à beira da fogueira inquisitória. Enfim, resta perguntar retoricamente quem tem razão: O outro ou eu. E sem necessidade de resposta, decido que está na hora de tomar um café quente e largar a caneta eloquente que mancha minha mão de tinta roxa.
Nossa! Que calorão…
Mãe, feminista, professora, nortista e MULHER. Jheime de Sousa. Professora e mestranda em Educação. Técnica/UFRA