A Madrugada do Dia

— Vamos animar um pouco essa tarde alaranjada, Bradou Fanuel, que morava com Filemon e Selena numa casa alugada no centro de uma cidade pequena, açoitada por injustiças humanas e espirituais. Com poucas nuvens adultas no céu e vento tímido penteando as árvores, realmente era uma oportunidade nobre na tarde daquela familia feita de partes de outras famílias, pois nenhum dos três eram parentes de sangue, mas sim de alma. Oportunidades assim são raras nos dias de hoje. Talvez a chuva chegue mais tarde e resfrie as almas que se iludem e se escondem na cidade do desengano, do temor, do cláustro, do torpor. Mas agora o momento é dos contatos mais vivos e livres aproveitarem as generosas horas, pois a tarde está escura de um jeito que eles sentem, e não entendem o porquê, que algo acontecerá quando anoitecer. Algumas pessoas comentam sobre a voz que fala em suas mentes e muitos se autoproclamam loucos, muitos se trancam mais ainda em seus mundos mesquinhos e são poucos os que cantam, tocam, escrevem, vivem. –Vamos filha, vista essa camisa amarela com essa estrela vermelha na frente, essa calça verde com coraçõeszinhos brancos e esta sandália confortável, mas se você não quiser nada disso fique a vontade, viu? Sorrindo, Filemon estava escolhendo no guarda roupa velho uma roupa leve pra vestir. Escolheu. Ajeitou-se. Penteou-se. Pegou um rádio de pilha pra tocar umas músicas, baixinho. Pensou em expremer um cravo em seu rosto, mas desistiu, deixou pra depois. Fanuel inquieto na sala os apressou. –Estão prontos!? Só mais um pouco, responde Selena. Agora estão todos prontos na sala desbotada. Bateram selfies, os três. Os dois homens de meia idade, camisas abertas, óculos arranhados, barbudos, rostos sugados, com sorrisos enferrujados pela vida. A menina ainda não tinha essas marcas do tempo. Seu rosto é viçoso como um pêssego, olhos grandes e negros, cabelos pretos e lisos na altura da orelha, sorriso limpo e uma vitalidade imensurável. Cuidaram de fechar tudo direitinho, a porta de vidro fumê blindado e as cinco janelas de madeira de lei que davam para a vista do vale cheio de luzes de um azulado exotérico. Antes alí, havia um lago generoso e profundo, cheio de alimentos e lendas, onde pescadores todos os dias mergulhavam e pescavam com lanças, e com seus barcos velhos deslizavam no imponente e misterioso espelho dágua. Esse lugar mudou muito, completamente. Muita coisa não está mais no seu lugar. Pra onde foi toda aquela água? As pessoas mudaram muito, assim como os insetos, os morcegos, os vírus. Mudaram-se a maioria dos pássaros. Onde agora sonham os pescadores? E todo aquele movimento de gente, de cheiros, preços, vozes, fotos, tantas coisas. Lá fora, o ar é rarefeito e as poucas árvores têm poucas folhas que, desidratadas, caem derrotadas no solo infértil. Eles Desceram alguns degraus daquele complexo habitacional sinistro e foram brincar de bola na quadra de esportes comunitária tomada por sapos e musgos e, por uma caprichosa coincidência, ainda tinha no teto grandes e caras lâmpadas brancas acesas iluminando, na penumbra da tarde, a viagem dos três. Para algumas pessoas assombradas, que os obsevavam escondidas, trancadas em suas casas, aquilo só podia ser loucura. Agora o que atravessa a tarde são2 risos de felicidade, pelos corredores estreitos, ruas sozinhas e poucas janelas entreabertas nos cômodos da vizinhança mórbida, quase ja sem a última gota de esperança. — A que ponto todos dessa cidade chegaram? Será que ainda existe compaixão? Felicidade? Piedade? Fé em Deus? Entristecido, mas rindo, questionou Filemon.
—Selena, vc nao teme ficar aqui fora? Fanuel abaixa-se até a altura da menina e a olha nos olhos.  — Meu medo é viver toda uma vida presa e infeliz a ter que morrer sendo feliz por uns instantes aqui fora, explica com sagacidade a menina. Os dois homens refletem. Nesses tempos de medo, sair de casa e brincar na rua era muito anormal. Todos estavam trancados em suas casas. O isolamento era a solução. Sair de casa era suicídio. Ouve-se um estrondo distante. Algo grande chegou naquele localidade. Um som grave irrompe do céu crepuscular. Não parece um avião e nem trovões da tão esperada chuva. O tempo foi ficando vermelho e ouvia-se lamentos ao longe. A tensão era tamanha. Algo aterrizou no cume do vulcão adormecido. Demorou, mas o som passou, e o céu continuou vermelho, enquanto uma brisa fugitiva atravessava aqueles corpos. Uma paz aterrorizante se espalhou nos lares. E o vermelho foi ficando cada vez mais escuro. Chega a noticia, interrompendo a música baixa, mas agitada, no rádio de pilha de Filemon, que muitas pessoas sumiram, políticos, pessoas famosas, pedreiros e artistas. Logo após, ecoaram cantos de pássaros e vozes de crianças brincando no absurdo daquelas horas da tarde. Pedidos de socorro atravessavam as vielas decadentes e silenciadas pelo estranho fato, pelos sons da agonia nas vozes de várias pessoas, que foram levadas sabe lá pra onde. Pro céu? Pro inferno? Pro fundo do mar? Pra dentro do vulcão? As autoridades procuram saber o motivo, mas demonstram um suspeito desinteresse pelo acontecido. Parece proposital. O governo pensa que ele é o Mickey e nós somos os patetas. E o motivo desse sequestro em grande escala talvez, somente Selena, filha mestiça de um Arcanjo, saiba explicar. E ela, o que pode fazer? Todos se sentem incapazes de vencer, pois sabem que todos têm culpa. Muitas chances foram dadas. Não duas ou três vezes, mas centenas de vezes. Selena é uma menina especial. Espírito espacial. Os dois não sabem mas ela tem um dos sete dons dos Arcanjos defensores, mas o que ela, com o seu poder, pode fazer pelos que não acreditam no bem, no amor, no que é belo, nada talvez. Os dois preocupados com os acontecimentos, não queriam assustar Selena. Nem que quisessem poderiam.
—Acho que brincamos o bastante –Filemon encerrou, assustado, a brincadeira. –Nao Pai, não Pai ( ela o amava mais do que seu verdadeiro pai) Dá pra se esconder ali em baixa daquela grande pedra com palavras sórdidas pixadas em cima. Eles só detectam o que emite medo e calor, a luz os sega, e a pedra abafa tudo isso, la em baixo ficaremos bem — Selena estava ofegante e concentrada. A menina estava convencida em resistir do seu jeito. Os dois se olharam e falaram ao mesmo tempo: Como você sabe disso, Selena? Fanuel e Filemon não eram nada sem aquela criança. A brincadeira acabou por hoje. O perigo, não pros outros, mas pra eles, naquele momente, passou. O céu ficou ainda mais estranho. Os três voltaram pra casa rindo de suas desgraças e lamentando a dos outros. Tomaram banho, comeram algo e dormiram. Selena vai continuar a sonhar mesmo com um mundo cheio de pesadelos. E os dias seguiram assim, com poucos focos de resistência contra a aniquilação anunciada. Uma flôr branca nascia em alguma calçada fria no coração daquela sociedade. As desaparições seguiam com seus sequestradores amorfos, colhendo aquelas pessoas. Até perto do amanhecer, o silêncio foi implacável. O mal por alguns instantes parou, não por cansaço, mas porque se alimentava das sombras e elas se dispersavam com a claridade que crescia no horizonte. Até que um Anjo Supremo desceu num raio etéreo, decapitando o mal, e destruíu aquelas sombras dentro e fora do coração de todos os culpados e condenados que ficaram para contar a história, com uma gigantesca onda de bondade, que devastou a maldade daquelas mentes. O mundo teve seu julgamento e mudou muito, talvez pra melhor, não sei. Selena teve sonhos maravilhosos naquela noite e acordou chamando por Fanuel e filemon, que não responderam, não estavam no quarto, nem na sala, em lugar nenhum da casa. Ela grita desesperada e cai no chão, afundada em lágrimas. Em cima da mesinha de centro da sala um bilhete que dizia: — Fomos, não sabemos onde, em algum lugar, comprar algo pra fazer pro almoço. Já voltamos. As lágrimas se dissolveram em gargalhadas de alívio diante a ressaca das circunstâcias. Que bom, ela poderia viver poderosamente suas últimas semanas na terra e seria ótimo se realmente um dia eles voltassem para casa.

Antonio Marcelo, 38 anos, funcionário publico e Trader amador, nasceu em capanema, interior do estado do Pará, foi para Marituba, na região metropolitana de Belem, com 8 meses de idade. Filho de pais humildes e sem muita instrução, deve o seu gosto por livros a sua irmã mais velha, q desde muito cedo o incentivou e o fez gostar de ler e estudar. Sua infância e adolescencia foi vivida integralmente. Brincou descalço na rua, tomou banho de igarapé, tomou banho de chuva, subiu no jambeiro e comeu os mais suculentos e vermelhos frutos. O gosto pelas letras surgiu na metade de sua adolecência e todos os conflitos dessa fase foram transformados em poemas delirantes, que mais tarde entre muitos escritos foram reunidos em livros como RESIDUO DE RELÓGIO e depois surgiu CLEPSIDRA livro feito de um só fôlego. Sua paixão pelo universo o fez escrever FISSURADO PELO CÉU. Mais na frente, seus poemas saem da fase simbólica e incosciente para uma fase prosaica e emotivamente racional, de escritos longos e espirituais. Essa fase é marcada pelo livro SEGUNDO LIVRO DAS RUAS. Admirador demasiado dos prosadores, sempre sonhou em escrever contos, mas a liberdade poética o confundia a criação. Foi quando perdeu o medo e pulou no mar da prosa, criando seus primeiros contos. Desde entao sua vida se tornou mais ampla no sentido lúcido e eterno da efêmera palavra.

Fotografia: https://www.instagram.com/anataamy/