ASSIM FOI FEITO

Há tempos não rezo.
Jamais rezei de verdade.

Uma mulher louca frustrada e nunca realizada, amarga pelo seu casamento de desencantos, debruçada sobre a mesa com o café esfriando balbucia suas incertezas como hino de uma nacionalidade de fracassos. Ela é desagradável como a sensação de perder um anseio.
      Manhã arreganhada, escorres nas cabeças desorientadas de todos os habitantes desta palhaçada, se te parassem, desistirias? És uma reclamação antipática de quem não entende o que de fato é sofrimento, como as mentiras contadas nas conversas aleatórias (suicidas), inverdades que juram ter aproveitado todas as oportunidades e que não desperdiçaram a vida em vagabundagens deliciosas …
      Com os delírios de um filho amante da poesia e de viagens oníricas;
      Com amizades com canalhas visionários desviando-se no meio dos carros;
      Com suposições de significados para as inequações dos dias.
      Dizem que o destino é o pai da sagacidade e seus olhos estão em todas as esquinas e suas mãos infinitas a empurrar cada indivíduo para seu abismo particular. Nada de seguro nos apara neste veloz declínio a que somos equiparados. Contraltos murmuram outros caminhos na estrada de lugar nenhum, no meio desta galáxia que se expande em loucos acontecimentos que imundamente são indignos dos faraós pós-modernos.
      Eu que nunca entendi o atropelo das relações , a infidelidade consigo mesmo, o coquetel de coragens, o natal e suas procrastinações seguidas de novas promessas… Ah estas normas em que todos são disciplinados e apropriados, procuro meu grupo disforme para me fazer companhia nesta multidão de bem sucedidos.      Aquele homem é personagem de um conto perfeito de mediocridades. Ele acomodou-se entre as dobras do sofá e as falas ensaiadas do jornal das oito, antes em algum passado inabitado, cerrava o punho para as lamentações vãs de qualquer preocupação mais velha.
      Não se pensa enquanto reza, rezar evita pesadelos.
      Se eu tivesse um Deus, o que pediria?

ANA TAMY, Paraense – Turismóloga – Mestranda em patrimônio cultural. Tem um atalho-emboscada para acreditar nos motivos, mas tanto faz.

Fotografia: https://www.instagram.com/pedrosaneto/