Crônica de um momento

            “Por onde andei, enquanto você me procurava?”, era o som de Nando Reis naquele final de tarde no radinho do Canudos Praça Amazonas, em plena Rua Gama Abreu. Tudo parecia mais uma viagem de ônibus como tantas que já tinha feito, tantas idas e vindas, a não ser pelo fato da moça ao meu lado estar se jorrando em lágrimas. Sim! Chorando desenfreadamente.

            Ela tinha os cabelos bem longos e escuros. Absolutamente, não conseguia ver o rosto dela, apesar de estar ali, ao meu lado. Estava com a expressão voltada para a paisagem urbana, pela janela.  Talvez, não quisesse conversar com ninguém, não queria dividir seus sofrimentos ou lembranças com outra pessoa naquele momento.

            Tentei “quebrar o gelo” e iniciar um diálogo. Mas, subitamente, percebi-me tão frágil em minha existência que não poderia conseguir ao menos ser empática. Lembrei-me dos momentos que amigos e familiares mais precisaram de mim e me ausentei, assim como quando mais precisei, apenas o forro do meu colchão absorveu minhas angústias. Questionei-me o porquê teria que estar disponível para alguém desconhecido.

            Cheguei atrasada no aniversário de um ano do meu sobrinho e quando bati na porta, ele já tinha quinze anos. Ensaiei minha infância toda a forma de expressar meu amor ao meu pai. Mas quando tive coragem, já havia anos que ele havia ido embora do meu convívio. Quando percebi que o cara playboy era um transfóbico que apenas me objetificou, quem realmente se importava comigo já tinha jogado no lixo os grãos de afeto, os quais compartilharia comigo.

            Respirei fundo e resolvi oferecer meu ombro àquela moça. Talvez, não resolveria. No entanto, compartilharia com ela as chances que desperdicei, os aniversários que não fui, os abraços que não dei, as frases que não disse, os amores que nunca compartilhei. Enfim, os momentos os quais me ausentei de mim. Somente desta forma, sentiria-mesuficientemente capaz de compreendê-la.

            Quando me preparava para sair do meu silêncio, ela virou o rosto cheio de lágrimas e me olhou fraternalmente de uma maneira tão única, singular que comecei a chorar também, pois aquela moça era eu.

Lyah Santos Corrêa, 38 anos, psicóloga e mestra em Psicologia pela UFPA. Além disso, uma pessoa trans que fez parte do movimento social LGBTIQ+ do Estado do Pará. Não tenho muitos escritos. Porém, escrever, principalmente, crônicas, é um movimento muito catártico e libertador. Meu foco sempre são assuntos voltados para o cotidiano de pessoas transexuais e travestis até por conta de serem meus atravessamentos viscerais e vivenciais. Escrevo esporadicamente. Muito esporadicamente. Atualmente, trabalho como psicóloga clínica e tenho perspectivas de escrever sobre os atravessamentos de ser psicóloga trans.

Fotografia: JACY SANTOS