AT: Por favor, apresente-se.
MA: Eu sou Matheus Almeida, tenho 24 anos, sou comunicólogo, diretor e artista visual de Belém do Pará.
AT: O que é ser um artista visual?
MA: Um dos conceitos da arte é a experiência humana de conhecimento estético que se expressa através das ideias e emoções. A arte visual é uma especificidade disso, porém ela tem como característica agregar outros tipos de artes e frentes tecnológicas.O artista visual é contemporâneo que se expressa e atua de forma imagética. E pensar em arte visual contemporânea é pensar no artista, pensar a possibilidade de se ver nesse mundo e se utilizar de todas as ferramentas para provocar percepções, memórias afetivas e como transformar a sociedade através da arte. Me coloco num ambiente de intersecção entre arte e comunicação, justamente por ser comunicólogo trabalhando com audiovisual. Considero o meu trabalho de arte visual como um desvio da arte tradicional, onde me aproprio de ferramentas de comunicação e da tecnologia para experimentar e apresentar conceitos, histórias e narrativas.
AT: Como a sociedade influencia no teu trabalho?
MA: A sociedade me instiga de formas e maneiras diferentes. Eu diria que a sociedade contemporânea é pautada no aqui e agora, o presente, o que vivemos hoje. Somos completamente bombardeados por informações e devemos isso muito graças as tecnologias que possuímos. Por ela temos acessos que não teríamos em outros momentos da humanidade, de tantas características possíveis posso destacar duas. Hoje é comum assistirmos vídeos de violência policial, racismo, homofobia e tantas outras injustiças que podem desencadear grandes manifestações, como acompanhamos no caso recente de George Floyd, homem preto que foi morto por um policial branco. E isso me leva a uma frase dita por Will Smith: “O racismo não está piorando, está sendo filmado”. Isso é exatamente o que vivemos hoje. Outra característica da sociedade é a diversidade, é saber que existem pessoas diferentes e não podemos separá-las colocando-as numa caixa. Então, no meu trabalho sempre vou abordar questões sobre racismo, diversidade, crises, entre outras questões que me atravessam com o foco sempre na minha subjetividade. Sempre penso que todos nós, seres humanos, temos a capacidade de atuação no mundo em que vivemos. A nossa condição existencial faz da nossa experiência algo muito relevante, assim como a vida é uma experiência à arte também.
AT: Podes citar com quais outros tipos de arte o teu trabalho tem interlocução?
MA: A maior característica do audiovisual é a narrativa de como contar aquela história, como expor o pensamento por trás da obra. E para fazer isso, sempre acrescento no meu trabalho vários tipos de arte, até mesmo de forma inconsciente. Como a música que é o som, as artes cênicas que é o movimento, a literatura que é a palavra. Essa conexão com outros tipos de arte sempre existiu no audiovisual, cinema e na tv, mas confesso que não me prendo muito nisso. Até me ocorreu um poema, do Décio Pignatari, em que ele fala: “Na arte interessa o que não é arte”.
AT: Nesta reconfiguração de hábitos da sociedade durante a pandemia, é possível já apontar uma mudança no consumo e produção de conteúdos no campo das artes visuais?
MA: A arte sempre nos coloca em diversos locais, sendo em shows, cinemas, galerias, ruas… A nossa limitação atual de ficar em isolamento social não nos impede de vivenciarmos a arte por outras maneiras. De tempos em tempos, passamos por um reconfiguração de hábitos, né? Com o surgimento de novas mídias, tecnologias, tendências e necessidades. Já vimos que nenhuma mídia morre, ela converge, se adapta a necessidade atual. Com a arte não é diferente, ela tem grande poder de adaptação. Sobre a produção de conteúdo, faz parte de um processo que não é simples, digo que é até meio doloroso. Existe uma ansiedade muito grande com o que criar, o que produzir, o que falar. Vivenciamos experiências artísticas que nos coloca no aqui e agora. Prestamos mais atenção no que está acontecendo ao nosso redor, a partir daí, temos um terreno fértil para experimentações.
AT: Falando em acontecimentos recentes, como o movimento ativista Black Lives Matter, de que forma artistas podem utilizar suas vozes em prol de discussões contra o racismo?
MA: O movimento Black Lives Matter ganhou total apoio de muitos artistas, tivemos muitas obras com mensagens fortes e necessárias para a conscientizar as pessoas que o movimento é importante. O artista sempre propõe o entretenimento e quando vem acompanhado de conscientização é muito poderoso, é um entretenimento além do entretenimento.Foi muito importante o espaço que deram para os artistas pretos falarem, mas também foi importante artistas brancos produzirem artes em apoio. O racismo não deveria ser um problema só da população preta, mas sem de todos os seres humano
AT: Mais do que nunca com a pandemia, estamos agora debruçados sobre o consumo de conteúdo virtual. Podes falar qual a importância das redes sociais para a divulgação do teu trabalho?
MA: Em apenas alguns meses de pandemia evoluímos digitalmente uns 10 anos, por mais que ainda não temos a estrutura necessária de acesso a internet. As redes sociais cumprem um papel muito importante na publicação de trabalhos artísticos, por ser um lugar democrático e permitir conexões. Durante muito tempo tive minhas redes sociais em privado, ou seja, ninguém via o que eu tava fazendo. Desde que coloquei publico e comecei a compartilhar meus trabalhos consegui fazer provocar percepções, recebi elogios, collabs com outros artistas e tudo isso me motiva muito a não surtar, pois estou ali colocando para fora o que tenho a dizer e a continuar trabalhando.
AT: Podes citar perfis de artistas, mulheres e homens paraenses, que nossos leitores precisam conhecer?
MA: Temos muitos artistas que protagonizam arte contemporânea no Pará, são eles: Nay Jinknss (@nayjinkss), Pv Dias (@palovitu), Carolynne Matos (@filhadevenus), Caê Jaste (@caecsj), Vitoria Leona (@vitorialeona), Vilson Vicente (@vicentevilson), Marcely Gomes (@f1er6e), Jean Petra (@jeanpetra), Adrianna Oliveira (@drioliverrr) e Labô (@laboyoung). Claro, existem tantos ainda.
AT: Quais os desafios para o artista paraense ter aceitação da sua arte em âmbito nacional?
MA: O paraense por sí só é uma minoria, por ser do norte, distante dos grandes centros. No Pará, que possui uma das maiores populações pretas do país, é como ser minoria duas vezes. Nessa perspectiva vejo que o maior desafio é justamente aparecer, furar as bolhas e sair da zona de conforto. Mostrando o seu trabalho, compartilhando, falando dele, mostrando a nossa visão de mundo e isso não é tão simples. Deixando claro que não tem nada de errado em ficar na zona de conforto, nosso povo já sofreu tanto e não podemos nos culpar por ficar a onde é confortável.
AT: A Cura se desenvolve na mudança de foco do olhar, provoca o telespectador a procurar em si passado e presente. Como este trabalho contribui para as discussões sociais e percepção individual ? Qual o ponto de identificação universal contido nele que dialoga com o interlocutor?
MA: Cura surgiu de uma provocação para me tirar da minha imobilidade, nessa perspectiva de pandemia, isolamento social nos faz ficar em casa olhando para as paredes e consumindo cada vez mais noticias ruins. As manifestações contra o racismo me fez refletir sobre eu mesmo e entender que tenho varias marcas, cicatrizes e traumas de um passado que eu nem vivi. a escravidão. Vivemos hoje as consequências e são muito dolorosas. Durante muitos anos da minha vida acabei me culpando por algo que não tinha o controle e essa culpa vai deixando marcas. Cura fala exatamente disso, o processo para me curar desses traumas, olhando o passado e o presente para talvez apontar um futuro.A arte é muito subjetiva né? E eu acho isso incrível, ela consegue atravessar cada pessoas de um jeito e com “cura” não foi diferente. Quando as pessoas vão assistem, e se identificando de alguma maneira, eu consigo tocar as lembranças do outro e que se quer conhecia e isso é algo visceral. Ali o trabalho deixa de ser meu e passa a ser de quem foi tocada por ele. Mas se for para destacar um ponto de identificação universal eu digo que é perceber que precisamos de cura para superar traumas e seguir em frente.
ANA TAMY , Paraense – Turismóloga – Mestranda em patrimônio cultural. Tem um atalho-emboscada para acreditar nos motivos, mas tanto faz.