Quando sacudiu as roupas e as deixou penduradas no varal, avistou o mato, calado e soturno. Sentiu em seu rosto o sopro gelado do medo e no mesmo instante, as batidas em seu peito já alcançavam a pulsação de um maratonista. Olhou por cima das roupas, com as mãos grudadas no fio liso da corda esticada; sentia gotas d’água caindo em seu corpo, molhando seus chinelos e misturando-se a areia do quintal. Espiava com a íris aumentada o céu azul e as nuvens baixas desenhadas, que de tão leves, pareciam acariciar seus cabelos.
Os pensamentos viraram um caleidoscópio para encontrar uma saída e conter o temor que lhe aparvalhava os passos. Tinha que respirar e pensar, algo quase impossível para o momento vivido. Conseguiu com muito custo olhar para o alto e em devaneio com o sol, percebeu que sua hora havia chegado. Afinal os relatos acerca do grande dia eram muitos, e a cada narração, escutava com tamanho apreço as palavras moldadas pela sinuosidade dos lábios anciãos.
Seus tímpanos percebiam as sonoridades das histórias espalhadas pelo quintal da casa, e a cada timbre falado, fosse contralto, solfejo ou agudo, papoulas e lavadeiras assanhadas plantadas rente às cercas, sorriam umas com as outras e cochichavam com as samambaias, que logo revelavam tamanho segredo às outras plantas da vizinhança. Vidas presentes contornavam a varanda e sentiam novas vibrações, saudavam a grandiosidade da espera e sabiam que tudo já estava preparado. A moça sempre soube que seria um grande momento, e essa espera ressoava em sua vida, como um toque de tambor, altivo, de barulho forte e seguro, avisando sobre a enorme mudança.
Quando o coração alcançou doze badalos e seus olhos conseguiram enxergar o lugar, o pequeno lago no fundo do quintal cresceu e as muitas conversas que teve com sua avó sentada nos degraus da escada, envolveram-na em profunda conexão com seu quintal. Sendo a natureza sua única testemunha, tomou posse do fado deixado pela velha senhora, que desfiava o rosário na varanda da casa, sentada no banco cinza de quatro pernas, vigiado noite e dia por uma mutuca, que de tão pouca gente que passava, não se dava mais ao trabalho de ferrar ninguém.
Na grande castanheira que marcava o terreiro, fitas coloridas entrelaçadas em seu caule, balançavam saltitantes e faceiras e junto com elas, surgiam refletidos com a luz do sol os encantados e seus guias, coloridos, exultantes. Com olhares serenos, afagavam a mais nova integrante do lugar. Benziam as vestes, pitavam seus cachimbos, sopravam vida pelo bico de seus fumos, dançavam a melodia da chegança, entoavam canções em línguas diferentes emanando vibrações que até as flores das árvores bailavam em rodopios. Olhavam o infinito, sorriam para os quatro elementos e uniam-se em energia, uma grande festa!
A casa verde da esquina vivia sua boa hora e Jurema, a menina de 15 anos, era a nova guardiã do lago. Ela espiava tudo com pés grudados n’areia e na troca de olhares e sorrisos de canto de boca com sua avó, entendeu o que estava acontecendo: todos os dias mergulharia serena e forte, submergindo na profundidade escondida nas águas de seu quintal, para deliciar-se com o lugar que foi escolhido para ser sua nova morada, desde que houvera dado o primeiro sorriso à mãe d’água. Um dia marcado por medo e certeza, especialmente para sua avó que recebera a notícia através de um sopro forte em seu ouvido, quando lavava mandioca à beira do lago com a ajuda da neta. O frio gélido sentido na coluna confirmava sua intuição ancestral de que Jurema fora escolhida para morar no ventre das encantarias. Desde o dia da revelação para a sábia senhora, a casa verde não era mais a mesma: os sentidos da neta foram aguçados para perceber o invisível; seus cabelos passaram a ser banhados com água de comigo-ninguém-pode e seus banhos eram purificados com as folhas do alecrim. A voz que cantava as preces mudava conforme a influência de seus guias e seu sorriso confundia-se com a respiração intensa quando inalava a brisa perfumada vinda do lago.
Abraçada com a energia que aspirava e sentia, a menina caminhou bem devagar, olhava os dons recebidos e agradecia com seu perfume a cada ser que lhe confiou tal prestígio e missão. Suas pernas a cada passo, transformavam-se em escamas brilhantes, os cabelos pretos bailavam no ar e seu coração agora pulsava em batidas intensas, cadenciadas pelo banzeiro formado para lhe receber. Da varanda, encostada no esteio da casa, com as mãos estendidas, a avó sorria e seus pensamentos ecoavam para o quintal, desenhados pelo vento e escritos nas folhas da imbaúba.
E lá se foi Jurema para o fundo das águas pertencer ao seu encanto com mergulho deslizante. Botos e pirarucus coroavam de bubuia sua chegada. Bolhas d’água ressoavam canções para seu primeiro bailado. Raízes perfumadas abriam os caminhos desenhados na areia fina do fundo do lago. E os encantados do fundo acolheram a menina, mãe da boa hora e das águas. Dizem que todos os dias, às dezoito horas, ela volta para a casa verde. Quando sai do lago, espia por cima do varal e conta seus segredos para as lavadeiras que apreciam tanto as narrações encantadas, que depois desse horário se fecham, miúdas, confabulando para a lua e as estrelas as histórias do fundo do quintal.
Lúcia Helena mulher negra, mãe e professora, amazônida integrante do Movimento de Contadores de Histórias da Amazônia- MOCOHAM, e estudante do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Sociocultural do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém do Pará.
Fotografia: https://www.instagram.com/luizbraga/