Lembrança daquelas mulheres marajoaras

Pow! Pow! Pow! Barulho no céu e gritos na terra. Aquele momento, no qual os fogos de artificio explodiam no céu, tornava-se sempre o clímax da festa. E eram elas, as mulheres marajoaras, que se responsabilizavam por isso. Opa! Não vamos nos apressar. Deixa-me contar como tudo isso começa…

A Ilha do Marajó possui muitos encantos, ritos e mistérios. E no meio de tudo isso, lá, estava a minha infância. Atenta. Preparada para gravar todos os detalhes possíveis. Quando tinha festa, lá no terreiro da vovó Esmeralda, hoje, uma casa de alvenaria ocupada por outra família, era uma frenesi danado. De manhã, cedo, os moleques capinavam o espaço do evento e as meninas, depois, limpavam este com uma vassoura de palha.

As mais velhas colocavam agua na panela para ferver e deixavam os temperos,já cortados, na espera do que os homens poderiam trazer da floresta. Na cozinha, elas eram barulhentas. Cantavam, falavam dos seus maridos e trocavam experiências sobre casamento. Riam. Preparavam o licor de jenipapo ou de qualquer outra fruta. Mas, era a “branquinha” malvada a bebida predileta delas.

Os homens chegavam da mata com as caças nas costas. Pingavam de suor. Pronunciavam poucas palavras entre eles. Apenas, um deles, pedia licença para entrar na casa e, em seguida, entregava os bichos para elas. Mal esse abria a boca para falar, envergonhado, com tanta mulher reunida.

Senhoras e senhoritas saiam de dentro daquela residência de barro, com o porco e outros animais temperados para assar na fogueira, já feita pelos cavalheiros marajoaras. Depois, maridos e esposas se encontravam para arrastar o pé no terreiro, levantando a poeira, no qual, até então, estava adormecida no “salão” da festança. “O pau torava.” E o ritmo musical poderia ser qualquer um: carimbó, merengue ou qualquer outra música dançante.

Em seguida, as damas se reuniam, abriam a garrafa de cachaça e as caixas de fogos de artificio, guardadas em algum lugar que, somente, elas sabiam. Colocavam flores amarelas atrás das orelhas e… Pow! Pow! Pow! E o ar ficava esfumaçado.

Os homens ajudavam nisso tudo? Nada. Eram elas que erguiam os braços com as pistolas eretas nas mãos. Riam. Gritavam. Gargalhavam. Viravam a “buchuda” de marafo na boca ali mesmo.Riam. Gritavam. Gargalhavam. Não precisavam dos homens. Ficavam bêbadas. Ficavam felizes. Não precisavam dos homens.

Edson Campos: Louco e desesperado. A loucura por deixar, simplesmente, com que a minha imaginação se torne tão forte, a ponto de tudo transformar-se em poesia e narrações. E o desespero vem do tormento dos meus irreconhecíveis personagens que perturbam, de modo enlouquecedor, os meus ouvidos para que as suas historias pessoais possam ser contadas o mais breve possível.

Fotografia: https://www.instagram.com/luizbraga/