Manhã Mutante

     “Pessoal chegoooou o livro inédito do Kafka, livro inédito do Kafka pessoal”

     Ecoou um homem, assustando gatos que pescavam um sono satisfatório. Sob o desdém e a pressa de velhinhas ensacoladas e vovôs resmungões. Uma criança guiando um buldogue atravessou levantando certa poeira que inebriou minha curiosidade. Mesmo no limiar de um atraso parei curioso, não menos, descrente. Perguntei sobre o tal ineditismo da obra. Franz Kafka senhor. Confirmou o feirante. Na verdade é apenas um nova edição de um clássico, só me confirme. Continuei. Não senhor, o livro chegou de Praga e jamais foi lançado. Insistiu o homem que apoiava seus outros manuscritos em uma lona azul sobre o chão úmido, em sua maioria, revistas conhecidas e apostilas para concursos, livros espíritas e Vade Macum que nem era possível datar.

O alvoroço naquela feirinha só crescia de proporção. Outro feirante gritava anunciando a chegada de camarões frescos, mexilhões e baiacus assustadores. Uma moça engata seu vestido nos ferrinhos da laranja e emite um risinho, homens fardados caminham procurando, talvez, frutas sem procedência. Um carro som anuncia a missa do sétimo dia de um anônimo. Perguntei se poderia ver o tal livro inédito do Kafka. Gostaria de olhar tal obra, sugeri ao rapaz, que prontamente buscou em uma mochila, logo avisando que estava ainda sob o lacre dos correios. Vindo à minha mão observei a veracidade do remetente e alguns considerações em inglês. Não estais me enganando estais. Perguntei com educado deboche ao passo que o vendedor sentiu talvez debochada ofensa. Não senhor, jamais senhor, poderia vende esta obra em qualquer lugar. Oh meu senhor. Repetiu senhor algumas vinte vezes. Não quero não, obrigado. Disse tentando não soar ríspido. O feirante disse um desprezado tudo bem e reiniciou o anúncio de um livro inédito do Kafka. Antes mesmo que eu pudesse sair, uma velhinha, aparentando mais de oitenta, vestida para dormir, parou curiosa. Pegou o pacote nas mãos do vencedor, observou as laterais e cheirou como se fosse flores empacotadas. Tirou os óculos da bolsinha de oncinha e verificou o remetente. Inclinei alguns ângulos para ouvir sua imperceptível leitura da frase em inglês e a velha, sem titubear, retirou um bolo de dinheiro entregando ao vendedor de posição humilde com as duas mãos juntas como católicos à receber a hóstia. Logo em seguida a senhora rasgou o pacote e pude ler que o autor era Kafka. Mesmo sabendo, perguntei para confirmar. Claro que é. A resposta foi semelhante a uma criança que recebe um brinquedo e o aperta com força para ninguém tomar. Disse tudo bem e ela seguiu para as prováveis comprais matinais. A segui com o olhar: parou para cheirar maçã, depois apertou bananas e levou quatro limões minúsculos. Entrou uma loja de carnes. O calor belenense derretia minha percepção de liberdade e anunciava o atraso o avanço das horas, em Belém, o sol escorre o tempo com maior velocidade e nosso suor é a prova que ali envelhecemos com mais gravidade. 

Demorou meia hora, saiu e dobrou uma rua mais calma, quase em ladeira, a segui de longe, seus passos eram lentos, não foi difícil uma aproximação, a cada metro, o número de transeuntes diminuía, a rua foi ficando erma, um erro estratégico que beneficiava meliantes,  o sol, agora de peito aberto, flagrava apenas eu e a velha sob a observação de pássaros e cães distraídos. Parou em frente onde deveria ser sua casa, colocou as sacolas no chão, em uma delas estava o livro. Deveria levar todos, pensei, para ganhar tempo com eficiência. Não era um roubo, o que são pequenas sacolas com carne de segunda, limões, bananas e um livro inédito do Kafka, algo improvável, um achado de Praga, da vida, da literatura. Nesse momento, já não havia mais volta, desejos cristãs, castidade mórbidas, a literatura por alguma razão corrompera as ações, pensei nos filósofos, quem roubaria pela arte, pensei em Nu Descendo a escada de Marcel Dechump, talvez esse ato seja um ato dadaísta, talvez seja apenas um capricho de uma classe média mimada desprovida de compaixão, talvez Raskólnikov fosse mais fundo na miséria humana, eu apenas queria aquele livro do Kafka, não por merecimento ou sentimento de superioridade juvenil sendo algoz de uma idosa. Imaginei o futuro, essa velha partirá e esse livro ficará para um neto que passará os dia em redes sociais à achar que é um livro acadêmico qualquer, hoje ninguém tem tempo para processos e metamorfoses e talvez eu fosse o contemplado, assim como Max Brod, a divulgar sua obra inédita que por algum tipo de cálculo desconhecido veio parar em uma feira na periferia de Belém num dia de sol selvagem, como quase todos os dias belenenses. Valeria o sacrifício. Chegaria atrasado, não era um funcionário padrão e em que mais não era padrão: Roubei um livro da biblioteca certa vez, tudo bem, havia dezenas de exemplares, outra vez roubara maçã enquanto contavam um troco, tudo bem tinha apenas doze. A vida também havia roubado por assim dizer, coisas minhas. Não era de reclamar, mas a gerência do departamento deveria ser minha por direito, era o funcionário mais antigo. Quem reconhecia meu esforço em cuidar de mãe idosa e terminar o mestrado em tecnologia da informação e ainda consertar computadores para os amigos que não pagavam. Quando a dona da casa que alugo há anos irá descontar os meses de aluguel que paguei adiantado para ajudar sua neta asmática. Olhando de longe, a vida é um quadro de uma paisagem convidativa e de perto, é um amontado de cores aleatórias.

     Aproximei, inclinei lento, milimétrico e arrastei para o lado as sacolas com o pé, deixando cair laranjas pelos bueiros, a velha gritou ladrão, bem fraco, mas constante. As laranjas fizeram uma fila. Não pesavam, por um momento a vida não pesava. Era diferente.

     Não era possível que não se possa mais fazer sopas nessa cidade. Disse a velha. Tudo nos roubam agora. Lá vai ele, dobrando a viela. Não adianta correria, talvez esteja com fome, o coitado, come mas não sacia. São os tempos remotos. Deixe que chupe seus limões, um azedo a mais ou a menos não teria relevância naquela vida bandida. Talvez aprenda a ler sua existência. Eu nunca aprendi e hoje sei que ela é um animal desletrado. Coitado, deve achar que levou dinheiro. Não se pode mais ver uma velha à solta que coçam a mão. 

    Minutos depois, um rapaz lhe traz algumas goiabas, limões, um livro. Obrigado, disse, e o homem, perguntou a idosa. Fugiu, deve ser viciado. Está cheio por essas bandas. Eu mesmo fui roubado quando cheguei do trabalho na frente da minha filha. Esse até que estava bem vestido. Obrigado amigo. Disse a velha, com dificuldade para a achar a chave certo. Demorou meia hora.

    Peguei a primeira condução paguei sem esperar troco recolhi em torno do último banco larguei sacolas sol emprego pureza espírito fôlego pernas pulmões sonhos castidade espiritualidade clareza moralidade desviei de velhas encostei no vidro havia perdido Kafka. Dignidade.

João Rocha é escritor, contista, servidor público federal e morador da cidade de Marituba – Pará. Membro da Editora GatoEd, colaborador da Revista Criado Mudo (na plataforma medium), curador da Revista Kasmurro e autor da página de literatura Microcontexto (Instagram). Foi Publicado nos caderno de prosas da Revista Luso-brasileira ‘Subversa’ (2016 e 2018), na Revista ‘Trino’, nas antologias da CBJE (2015) e do site Álbum de Memórias em 2020. (Físico e E-book) e foi finalista do concurso literário das Universidades federais do Pará em 2018. João Leno Lima é pai do Júlio.

Fotografia: https://instagram.com/nayjinknss?igshid=1ru8ia0o3klv7