
O tangará sobrevoou o canteiro de alfavacas e pousou apressado no jirau. Rasante, encharcou-se na cuia e sacudiu suas asas soberanas, curtindo o cheiro do manjericão que acompanhava a cena de sua lata perto do pote. Deu vários rodopios na cozinha e conseguiu equilíbrio no limo das tábuas da armação de madeira. Era o despertador que Bené esperava todos os dias ao amanhecer.
Ao ouvir as asas do pássaro, ela ainda com os olhos fechados sorria pra dentro e iniciava a prece matinal para o santo preto. Depois, sentava na rede azul com varandas de crochê e de mansinho espiava o sol abrindo sua janela sem pedir licença. Sandálias ornavam seus pés firmes e longos e na cadência de suas pisadas o som de seu vestido varria o assoalho da casa embalando as tábuas gastas.
Bené ia e voltava, pilava os grãos de café com batidas certeiras e seus olhos pretos perdiam-se no infinito desafiando a paleta de cores do céu. A oferenda de preces acalentava harmonia, e o pássaro companheiro, menino inquieto, alegrava-se com sua imagem refletida nas panelas penduradas em grossos pregos ao redor da janela. Voava, pousava e arremetia, tudo para alegrar o dia daquela que mais ele amava.
Após o primeiro gole do líquido preto, Bené descia as escadas rumo ao porto onde lavava roupas. Equilibrista como era, ajeitava a bacia em cima da cabeça, enfiava o polegar na orelha da caneca de café e seguia no caminho estreito, assobiando a canção que sua mãe ensinara. Tangará a seguia, escondia-se nos galhos dos taperebazeiros, subia o mais alto que podia e retornava, sentia o cheiro da terra molhada, rodopiava à beira do lago e parece que entendia os pensamentos da amiga, que ali mesmo devorava o café que trouxera pelo caminho.
A fumaça inundava seus devaneios e de vez em quando ela olhava o rio e assobiava. O pássaro que tudo entendia, pousava no galho da cuieira, virava a cabeça para o lado direito e punha-se a ouvir aquela que conversava com as águas. Ali a cada roupa batida e deixada de molho nas folhas de pau d’angola, Bené lembrava suas origens, de seu povo, todas as conquistas e embaraços vividos. Lembrava das noites que dançava, cantava e rodopiava sua saia no chão até a poeira cansar, dos tons vermelhos que aromatizavam sua boca para os versos soltos e o compasso de seus pés que no pulsar dos atabaques, balançavam felizes na festa de São Benedito.
Depois de torcer as peças, espalhava suas lembranças junto com as roupas no capim, ali elas coaravam e agitavam-se com o tremular do vento. Bené ria e continuava a canção que brotava de seus lábios cerrados, agudos e ritmados. Sentada à beira do lago, sabia a bravura permanente de estar longe de casa. Ela que veio do Congo, comungava de saberes fáceis com todos da vizinhança. Tratava mal olhado com respiração apertada; benzia quebranto com orações amareladas pregadas por cima do jornal na parede e guardava em preces os louvores a Benedito, o mesmo que inspirou seu codinome.
Para o santo, o lugar sagrado era a mesa de madeira que Bené ganhara de presente, toda guarnecida por uma toalha branca com fitas azuis e vermelhas, cheias de vidrilhos em sua borda. As velas do altar reluziam seus olhos brilhantes e a cada invocação, confirmava a graça dos prodígios alcançados. Até tangará conhecia o preto milagroso, pois enquanto Bené fazia preces, ele ficava na janela, quieto, como a querer ouvir o que a mulher segredava.
Naquele lugar onde a mulher preta vivia, o tempo sossegava até enxergar águas turvas. Fazia da vida de Bené um balanço pendurado nos galhos da árvore ora no alto, ora com os pés no chão, devorando cafés e beijus embrulhados nas folhas das bananeiras. E ela, entoada por sua devoção, agradecia ao santo as experiências vividas, melodiava o chão de sua casa com suas caminhadas e espalhava a estampa do vestido nos degraus da escada. Comunhão universal com a natureza.
Lucia Helena Alfaia de Barros: Estudante do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Sociocultural do Museu Paraense Emílio Goeldi. Integrante do Grupo de Pesquisa DINA – Diversidade e Interculturalidade na Amazônia – Pesquisas Colaborativas e Pluridisciplinares. https://www.instagram.com/luhalfaia/
Fotografia: https://www.instagram.com/elzalima/