
Agora ela tem livros na cabeceira da cama e produtos cosméticos para pele. Alguém a convenceu que está envelhecendo ou parece que ela se convenceu que tinha que se cuidar, hidratando a pele seca que a acompanhava desde a adolescência, época em que só observava seu dedo mindinho que crescia contra sua vontade. No caminho até o armarinho pra comprar uma lapiseira certa vez, ela questionou o porquê tinha que crescer. Ela odiava seu corpo. Faltava peito, bunda, curvas, faltava se encaixar no maldito padrão para alimentar egos de garotos endeusados pela cultura. Se bem que ela se interessava mesmo era em alimentar sua sede de conhecimento.
Os livros na adolescência ficavam embaixo da cama por preguiça de repor na estante. Ela lia Camões com sua definição do que é o amor. Caiu na lábia do poeta português que perdeu um olho na guerra. Ouviu um caolho! Que tolice seguir alguém que pouco vê. Mas ela era inexperiente e por isso tem desconto. Convenhamos: acreditar que o amor é “dor que desatina sem doer” é de lascar! Doe! Doe valendo e sem piedade e se sente até na última vértebra da coluna, no cóccix.
Parece que hoje ela coleciona muitas certezas e poucas dúvidas comparadas com a adolescência, contudo há limites incuráveis que a visitam durante eclipses lunares. Agora, por conta de mais um eclipse se pegou fitando o espelho. Viu que seu corpo mudou, que há mais estrias e celulites, olhou suas costas. Quem olha a própria costas? Ela sempre gostou foi de olhar o universo, as constelações, os diálogos de Romeu e Julieta de Shakespeare. Sempre gostou de viver e por isso não encontrava tempo para ter que ser um corpo, ter que ser uma pele, com muita obrigação de se encaixar. Preferia suas curvas neurais.
A pele está mais macia com os cosméticos e pasma ela pensou: “né que faz efeito mesmo?” E ainda diz que acredita na ciência. Ora! Os livros ganharam novo lugar e pelo menos agora não ficam empoeirados embaixo da cama. Ela parou de recortar obras de arte pra pregar na parede e de decorar os nomes dos estados do Brasil. E pensar que até descobriu que um osso do corpo tem o nome do seu pai… É o tipo de coisa que Clarice Lispector chamou de cultura inútil da personagem Macabéa em A Hora da Estrela.
Atualmente, ela disseca questões, algumas ofertadas, outras sentidas visceralmente. E se pega pensando que tem que continuar hidratando sua sede de saber, focando em tudo que a atravessa paradoxalmente, e nutrindo seu corpo, retardando a falência de suas células depois dos 30 anos. Pensou que é uma delícia sentir a pele sedosa, lendo Fernando Pessoa. Há muitas formas de ser atraente! Há sim! Pode apostar!
JHEIME DE SOUSA: Mãe, feminista, professora, nortista e MULHER, mestranda em Educação. Técnica/UFRA
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FOTOGRAFIA: Sohrab Hura