DIÁRIO DE BORDO

FOTOGRAFIA: LEONARDO MAZZO

Quarta feira, seis horas da tarde, cais agitado, clima seco e úmido. Era dia de embarque na Estação das Docas. A primeira coisa que eu ouvi dizer sobre a viagem “Tu vais te arrepender!”. Uma crônica de um mineiro e mais meia hora de conversa com uma mocoronga foi suficiente para arrumar as malas e partir. Atamos nossas redes e alguém gritou “cadê minhas mulheres?”. Soubemos então, a viagem começou. Quando o navio partiu de Belém o coração apertou, mas não demorou muito para entender que a escolha de viajar de navio pela Amazônia seria uma grande aventura. Quinta feira, seis horas da manhã. O sino tocou e anunciava que o café estava sendo servido. O sol já havia nascido, nasce cedo para os ribeirinhos. Em uma copa pequena, com algumas mesas grandes, as pessoas se espalhavam a fim de entender o dia que estava amanhecendo. Em meados da manhã as lanchinhas a motor atracaram no navio em movimento. Eram os ribeirinhos subindo na embarcação para tentar um pouco a sorte. Adultos, mas, sobretudo, crianças bem pequenas, tímidas e descalças. O dia passou e durante muito tempo houve ribeirinhos em canoas buscando a ajuda de quem navegava em um grande navio. Ainda sim, crianças sozinhas em canoas bem grandes, em meio a um rio maior que nós, era o que mais impressionava. Seis horas da tarde e sol se pondo. No último andar do navio a céu aberto, era hora de relembrar algumas lendas que fazem parte da tradição dos rios. Nesse momento, já erámos seis, duas garotas das quais conhecemos no navio. Conhecemos então suas histórias, descobrimos alguns de seus gostos e em pouco tempo já agíamos como velhos amigos, à moda das crianças. Na hora da janta, descemos para o último andar e cozinhamos nosso miojo em um fogão de duas bocas, bem simples. Conhecemos um marinheiro da tripulação, e perguntamos despretensiosamente quando chegaríamos à Manaus, pois tínhamos pressa, já que o evento o qual iríamos participar começava domingo. Curioso em saber mais sobre nós, ele perguntou por que não estávamos jantando a comida vendida no navio “Vocês estão de dieta?” e fez uma expressão com os dedos que representava dinheiro “Estão de dieta de bolso?”. Sim, não hesitamos em dizer que sim. Prontamente o marinheiro nos ofereceu alguns pedaços de carne guisada, com arroz e macarrão. Saldo final do dia, produtivamente econômico. Sexta feira, seis horas da manhã. Mais um dia começava, o sino tocou, pessoas já falavam, crianças já brincavam, havia organização em filas para o banho. Era dia de leitura e nos dedicamos a isso. Em frente aos camarotes, lemos quase o dia todo livros os quais precisaríamos posteriormente. Conhecemos algumas pessoas e esse foi o dia que vimos um boto. Um japonês viu também e valeu a pena arranhar um inglês para tentar ensinar a lenda do Boto Cor de Rosa da Amazônia. No andar das redes, conhecemos os vizinhos de rede. Ao lado direito conhecemos a história do senhor vegetariano de 70 anos, com cara de 60. Suas refeições eram à base de abacate e farinha. Era sabatista. Passava quase o dia todo lendo, quando não, contava-nos um pouco sobre sua história. Ao lado direito, também tinha o comandante aposentado. Não tinha a pele tão conservada quanto o vegetariano, mas tinha muita história para contar dos tempos de marinheiro. Contou sobre a história de um suicídio. Um homem sozinho, nunca fazia as refeições. Um dia, ofereceram-lhe uma laranja. Aceitou a laranja e a faca. De repente, sumiu. Minutos depois aconteceu a tragédia. O homem se jogou no rio e para que seu corpo não flutuasse, se esfaqueou. Pessoas tentaram salva-lo, mas o rio é muito grande, do tamanho das nossas piores consequências após as nossas decisões. Atrás das nossas redes, tinha uma família de Paragominas, o pai, a mãe e duas garotas. As garotas eram agitadas e o nome de uma delas era Tifani – o nome da minha cadela. Do lado esquerdo, por fim, tinha uma pessoa importante a se relatar. Era uma mulher jovem, alta, magra e negra. Extremamente exótica, tinha um jeito tímido de olhar e falar com as pessoas. Saiu de Belém, para trabalhar em Manaus, alguém conseguiu um bom emprego para ela. Não tinha rede, toalha, lençol, tampouco dinheiro para comer. Mas tinha uma tentativa de vaidade feminina que encantava. Ela me disse que brigou com a avó que não queria que ela viesse para Manaus, e em meio à ira de uma briga, esqueceu-se do que seria importante na viagem. Não sei se era verdade, nunca vou saber. Mas alguém a deu uma rede, ajudamos com comida e biscoitos. Sábado, seis horas da manhã. É dia de parada em Santarém e dia de boa notícia “Vamos ficar cinco horas em terras mocorongas”. O pai da nossa amiga mocoronga prontamente estava nos esperando no cais de Santarém e partirmos rumo ao exotismo da praia de Alter do Chão, a pérola do Tapajós. O rio de águas calmas, doces e límpidas é apaixonante. Traz paz para a vida, tranquilidade para as cabeças agitadas. Viver tranquilamente assim deve ser uma boa forma de viver. Voltamos para o navio com a sensação de que o dia passou rápido, talvez a vida também passe assim. Dormimos a tarde toda, lemos pouco também. Seis horas da tarde, no entanto, era hora de subir para o céu aberto do navio. O espetáculo do pôr-do-sol ia começar. Conhecemos então, um argentino mochileiro. De moto e com um amigo, pretende percorrer toda a América do Sul e um pouco da América Central. Disse que teve aula de português e contestou o fato de os brasileiros necessitarem que a pronúncia das palavras seja foneticamente perfeita, caso contrário, não os compreendemos. Isso não é uma mentira e eu finalmente entendi as aulas de fonética do primeiro período do curso de Letras. Outros estrangeiros se juntaram à conversa. Algumas crianças também vieram participar do jogo. Começou então infinitas partidas de UNO, em várias línguas. Pronto. Descemos para jantar e o tempo fechou. Um vento forte agitou o rio de águas barrentas e trouxe consigo uma grande tempestade. Foi um presente incrível da natureza, uma tempestade em alto rio não poderia faltar. Domingo, seis horas da manhã. O sino tocou e eu já estava acordada. Bateu a nostalgia pré-fim-de-viagem. Muitas pessoas já haviam descido em outros portos ao longo da imensidão do rio, e é ai que percebemos, à moda de Novos Baianos, que pela lei natural dos encontros deixamos e recebemos um pouco. Talvez esse seja o mistério do rio. Paramos em Parintins, cidade do vermelho e do azul. É a festa do boi quem manda na cidade. Até as grandes multinacionais investem nas propagandas equilibradas entre ambas as cores. Não desci na cidade, mas conheci o senhor que procurava suas mulheres no primeiro dia de embarcação. Ia para o Peru, mas não me lembro se ele disse o que iria fazer. Seis horas da tarde, era hora de mais partidas de UNO, aulas de português e uma mistura de significantes e significados. Dois ingleses que comandavam as partidas de uno eram mais ingleses do que a gente poderia imaginar. Um deles, vejam só, comprou roupas listradas para entrar no clima do navio. Os argentinos não eram ingleses, mas um deles gostava de acordar cedo. Vai entender. Segunda feira, seis horas da manhã. O dia estava triste, nem deu vontade de levantar. O comandante passou pelos nossos aposentos e gentilmente, carinhosamente, nostalgicamente disse “Já estou com saudades de vocês”. Ficamos um pouco nas redes, conversamos com os nossos vizinhos. O comandante aposentado do lado direito mostrou seu livro de contos fantásticos, o vegetariano contava as poucas horas para chegarmos, a família de traz já havia descido em Parintins, a menina do lado esquerdo nunca parava na rede e eu observava a grandeza do rio, a imensidão de nos acolher e proporcionar uma calmaria que é privilegio dos ribeirinhos. Fizemos uma foto de recordação com os companheiros de UNO, e com quem mais se agregou ao grupo. Trocamos contatos, marcamos de nos encontrar depois. Arrumamos nossas malas, desatamos nossas redes, atracamos em Manaus. Enfim, a viagem ia começar.

Raisa Cristine Rodrigues de Araújo: jornalista pela UFPA, faz o MINUTO NO MUNDO pelo IGTV falando sobre jornalismo de viagem.

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FOTOGRAFIA: https://www.instagram.com/leonarrdomazo/?hl=pt-br