ENTREVISTA COM JACY SANTOS

AT: Apresente- se aos nossos leitores por favor.

JS: Bom, eu me chamo Jacy, tenho 23 anos; sou natural de Igarapé-Mirí, interior do Pará; sou estudante de Licenciatura Plena em História pela UFPA; Sou pesquisadora da linha “Povos Indígenas, Memória e Representação” no “MURA: Grupo de Estudo e Pesquisa em História e Resistência Indígena na Amazônia: Cultura, Etnicidade e Ensino”; sou indigenista e desde 2015 sou etnofotógrafa.

AT: Jacy, na tua bio do insta tu dizes que a tua fotografia é, sobretudo, um resgate da tua identidade amazônica. Qual a necessidade da vivência do fotógrafo ou da fotógrafa, para o registro fiel da identidade de um povo? Na tua opinião.

JS: A partir da minha experiência posso dizer que minha vivência como amazônida foi sendo construída ao longo do tempo que eu fotografo, pois, embora, eu já conhecesse os lugares, as pessoas, as manifestações culturais, etc, só passei a vê-los com sentimento de pertença depois da fotografia. E então eu pude contribuir com o registro fiel do meu município, por exemplo.

AT: Como a fotografia se relaciona com a memória ?

JS: Segundo Boris Kossoy, a fotografia é memória e com ela se confunde. E eu acredito nisso… Creio que a fotografia é capaz de emocionar, porque, aciona algo em nossa memória, assim como, também é capaz de forjá-las.

AT: Quanto do repertório do espectador é necessário para absorver um registro fotográfico teu ?

JS: Penso que minha fotografia é capaz de causar identificação e familiaridade. São registros do cotidiano, de manifestações que o espectador está acostumado a participar. Portanto, não acho que necessite de muito de seu repertório. Exceto, nos casos em que mesclo MPB + Fotografia que requisita conhecimento raso sobre as músicas, álbuns e/ou movimentos.

AT: Enquanto fotógrafa, mulher, nortista, quais os entraves a serem superados para o consumo do seu trabalho pela população?

JS: Há muitos, mas, creio que o preterimento é maior deles. Expresso de várias formas, ele se apresenta quando meu trabalho é substituído facilmente pelo trabalho de um homem, de um artista do Sudeste, de Belém, etc., não por falta de qualidade do meu trabalho, mas, por uma ou mais meras condições de privilégio supraditas.
Pra mim, o preterimento é o pior deles, pois, de alguma forma, ele nos impede de ter o pleno reconhecimento do nosso trabalho. Nos faz acreditar que não somos e nem nunca seremos tão bons quanto aqueles artistas que ganham editais, que ganham prêmios, que publicam livros, que são convidados pra exposições, que são convidados para fotografar o nosso Estado mesmo com muitos de nós aqui, etc.
As únicas ferramentas plenas que temos são as redes sociais, as quais, embora democráticas, têm alcance mínimo dentro da população que tem o Instagram (meu portfólio principal), por exemplo, muito longe de sua realidade.

JS: Qual o lugar da fotografia em 2020 com a super popularização dos smartphones e a independência das pessoas, gerada pelo celular, em registrarem os momentos?

AT: Creio que há uma resignificação da fotografia. Hoje, qualquer um pode registrar a si mesmo, um momento, um lugar, etc. e muitos o fazem com excelência por hobby ou necessidade (é o caso de comunicadores sociais que tem o smartphone como única ferramenta, por exemplo).
Todavia, o fotógrafo convencional ainda é importante no sentido de que, assim como, um professor não sucumbe ao tal “notório saber” fotógrafo permanece reivindicado quando se quer registrar algo de forma definitiva.
Resta às duas formas a coexistência. Ambas são fotografia. Uma bebe na fonte da outra. Quem sabe quantas narrativas novas a popularização dos smartphones trouxe? Inúmeras, imagino.

AT: Jacy comenta algum trabalho teu que te deixou emocionada em fazer? E por qual razão?

JS: O trabalho que mais me emocionou, de fato, foi feito a três, mas, não era um projeto nem nada. Foi a cobertura do Círio de Nazaré (2017). Na ocasião, tive a oportunidade de fotografar junto com dois dos meus melhores amigos, naquele dia, choramos de emoção várias vezes durante o percurso e as fotos de todos ficaram incríveis. O mais curioso é que eu estou longe de ser religiosa, um dos meus amigos é evangélico e o outro católico, mas, aquele Círio e a fotografia que produzimos a partir dele foi capaz de nos tocar de forma igual.

AT: Para finalizar, indica pra gente 4 fotógrafas nortistas que precisamos conhecer.

JS:
@filhadevenus
@nayjinknss
@karina_martins__
@nailanathyele