
Ser psicóloga trans é estar no lugar do cuidado como também ser aquela que o procura. É estar no lugar do saber-poder, de quem diz algo no campo da ciência, como ser também aquela que é objeto desta. Não era para ser, mas a relação entre um lugar profissional do cuidado (e em alguns caso, do ajustamento) e as vivências trans ainda permeiam o terreno do conflito.
Fugir dos estereótipos e constantemente ter que ressignificar a subjetividade é uma constante naquelas/es que ousam ocupar lugares não feitos para si historicamente.
A socióloga Berenice Bento, uma das pioneiras no Brasil no estudo da transexualidade a partir do viés dos Direitos Humanos, afirma que esta população habita ainda os vales sombrios da vulnerabilidade e da desumanidade. Isto não é nenhuma novidade quando estimativas de Organizações Não-Governamentais (ONG’s), como a Articulação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) e a Rede Trans, indicam que 90% de travestis e mulheres transexuais vivem da prostituição.
É extremamente sintomático perceber que os lugares de construção de subjetividades trans sejam reduzidos a determinados espaços, forçando-as a encontrar sentidos e possibilidades existenciais dentro do que é possível.

Em uma perspectiva histórica, as identidades trans percorreram pelos caminhos da patologia e da abjeção por não obedecerem a lógicas binárias de sexo-gênero. Foucault, inclusive, já questionava a construção de uma psiquiatria do século XIX que se construía a partir da articulação em torno da figura dos “anormais”.
Não é à toa que dentro de nossa sociedade pós-moderna, o imaginário coletivo absorveu muito do que se construiu enquanto produção de sentido acerca dos corpos trans. Muito foi e é cristalizado sobre suas vivências e seus lugares (ou não-lugares) existenciais. Por isso, para muitos, ainda é impensável, por exemplo, uma psicóloga trans falar e estar em um lugar de cuidado e de saber-poder quando a própria é a personificação da anormalidade, do sacrilégio.
Nesse sentido, reitero, ser psicóloga trans é estar no limiar entre manter firme a saúde mental e se proteger das pedradas diárias. É ocupar espaços e não ter espaços. É um constante reinventar, reescrever, ressignificar a própria vida.
Referências
BENTO, B. A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual. Rio de Janeiro: Garamond, 2006.
FOUCAULT, M. História da sexualidade 1: a vontade de saber. 3. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1980.
NOGUEIRA, S. N. B; AQUINO, T. A; CABRAL, E. (orgs). Dossiê: A geografia dos corpos das pessoas trans. Rede Trans Brasil, 2017.
Lyah Santos Corrêa, 38 anos, psicóloga e mestra em Psicologia pela UFPA. Além disso, uma pessoa trans que fez parte do movimento social LGBTIQ+ do Estado do Pará. Não tenho muitos escritos. Porém, escrever, principalmente, crônicas, é um movimento muito catártico e libertador. Meu foco sempre são assuntos voltados para o cotidiano de pessoas transexuais e travestis até por conta de serem meus atravessamentos viscerais e vivenciais. Escrevo esporadicamente. Muito esporadicamente. Atualmente, trabalho como psicóloga clínica e tenho perspectivas de escrever sobre os atravessamentos de ser psicóloga trans. https://www.facebook.com/lyah.correa
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